AGOSTO

Eu, Alice e Rose desembarcamos em Nova York mais animadas do que fomos capazes de nos expressar. Passamos pelo procedimento padrão no aeroporto e imigração e fomos ao encontro dos nossos rapazes. Eu larguei o carrinho de malas no meio do saguão quando encontrei Edward me esperando depois de atravessar as portas de saída.

Em um primeiro momento, eu iria ficar com ele, em seu apartamento, e foi como se o Natal tivesse chegado mais cedo de tanta alegria e felicidade.

Eu estava feliz. Ele estava feliz. E isso era o que bastava.

Durante alguns dias a nossa rotina foi como de recém-casados, tirando o fato de não sermos isso. Ele não queria me deixar sozinha e eu tinha que praticamente expulsá-lo porta afora para que chegasse até o escritório. Eu ainda não me sentia segura de passear para muito longe com receio de me perder e não conseguir me comunicar, mas é algo nato do nova-iorquino: eles estão sempre dispostos a ajudarem, inclusive quando o idioma pode ser um problema. Eu descobri também que eu poderia chegar aos cafés perguntando se alguém falava espanhol e facilmente encontraria alguém para me ajudar.

Uma das minhas metas era aprender inglês o mais rápido possível, então, comecei a fazer aulas intensivas. Era imprescindível se eu queria ficar no país e também para o meu futuro trabalho, que eu ainda não sabia qual era, mas que surgiria em algum momento. Edward também me ajudou muito nesse aspecto, pois começou a se comunicar comigo apenas no idioma. Ele falava frases românticas no meu ouvido enquanto eu preparava um jantar para nós enquanto o sistema de som instalado tocava I won’t go home without you, andava agarrado em mim enquanto caminhávamos por Little Italy e repetia todos os dias que ele era o homem mais sortudo do mundo.

Isso só mudou quando eu finalmente encontrei um apartamento.

SETEMBRO


Eu e Alice estávamos morando em um apartamento lindo e nos demos o luxo de escolher um com três quartos já que não ficaria tão pesado para nós duas. Rose, por opção própria, decidiu continuar com Emmett e eu estava realmente muito feliz por ela estar dando esse passo. 

Era aconchegante e confortável, com aquelas escadinhas tão típicas da cidade saindo por fora das janelas. Eu preferia algo mais perto da praia, mas Edward praticamente surtou quando eu citei isso, falando a respeito da distância entre o Brooklyn-praia e o centro de Nova York, onde ele estaria, então, acabamos optando por esse mesmo. 

Eu já estava passeando pelo bairro, me sentindo muito mais confiante como responder alguma questão sobre locais, quando perguntada. Era comum eu me encontrar com Edward na hora do almoço, aonde íamos a restaurantes chiques ou apenas a pequenas confeitarias desfrutar de alguns doces.

Meu lugar preferido ainda é o Central Park e em todos os momentos que eu posso estou no parque observando as mães empurrando carrinhos de bebês, grupos de amigos fazendo piqueniques, cachorros das mais diversas raças latindo e as pessoas que faziam seus próprios shows por ali e eram incríveis os sons que você consegue distinguir naquele lugar que ia das gaitas de fole a uma bateria feita com material reciclado. Eu comecei também a ficar de olho nos sites que falavam quando teriam shows de graça pelo parque para poder me divertir.

A cidade é incrível, tem um ar cultural tão intenso que em todos os cantos você vê algo interessante. Me perdi diversas vezes quando meu celular me levou para lugares diferentes do meu destino ou quando marcava que algo que eu queria existia, porém, não estava lá. Conheci as maravilhas da cidade que estão escondidas em pequenas escadinhas como uma boutique, costureiras, livrarias e pequenos bistrôs. Era muito fácil fazer amizade e logo me vi cumprimentando pessoas que eu encontrava todos os dias na padaria ou no mercado ou os seguranças da estação de metrô.

Eu estava me sentindo bem.

OUTUBRO

- Sabe, Alice – digo terminando de mastigar meu waffle com uma calda extra de chocolate. – Estava pensando em fazer algumas fotos para um book e deixar disponível na internet. Pode ser que alguém se interesse e eu também posso me cadastrar em um banco de modelos. Estou mais confiante agora que eu já consigo me comunicar melhor e depois do comercial. 

- Isso é genial, Bella! Eu posso te ajudar com o que você precisar, claro. – ela responde, sorrindo.

Meu celular vibra e aparece na tela uma mensagem de Edward, que me faz sorrir.

- Você deveria realmente aderir mais as redes sociais. – ela completa. – Precisa estar em contato, acompanhar o trabalho de outras pessoas, buscar inspirações. 

Mastigo, mastigo, mastigo.

- Eu sei. – digo enquanto empurro o prato dentro da lava-louças. – Juro que me dedicarei mais a isso. Vou estar no quarto, se precisar de mim. – e subo as escadas, já liberado o telefone para verificar as notificações.

Edward: Look into my heart and you'll find love. <3 Me dei o direito de fazer a licença poética, espero que não se importe. ☺

Ele agora manda uma variedade de emojis junto com suas mensagens para mim, o que me deixa sorrindo bobamente. Tínhamos entrado em uma rotina onde eu ficava uma semana inteira com ele em seu apartamento e depois voltava para o meu. Não sei como começou, mas minhas roupas estavam divididas assim. 

Eu respondo com outro trecho de música:

Eu: Thank you for loving me + emojis.
Estou pesando em fazer uma sessão de fotos e me cadastrar em alguns bancos de modelos para trabalhos futuros. O que você acha?

Edward: Porra, mi estrella! Acho maravilhoso e seria uma ideia inicial enquanto você não encontra nenhum estúdio de dança para voltar a dar aulas. Posso te ajudar?

Eu: Preciso encontrar um bom fotógrafo e pensar em algumas sugestões dos temas. Pensei em tirar algumas em estúdio, outras ao ar livre, algumas na praia e outras temáticas. Aqui tudo é tão inspirador! Mas eu estou sendo totalmente clichê.

Edward: Sei que EU sou inspirador na sua vida *emoticon de carinha sensual* E você não é clichê, vou pesquisar como as fotos precisam ser apresentadas geralmente para as agências, mas faremos do seu jeito. As fotos na praia poderiam se estender em um final de semana em Miami, se você tiver interesse. Sim, é um convite. *outro emoticon*

Eu: Acho que posso aceitar o seu convite, desde que eu tenha acesso a você em todos os momentos que eu quiser. Você está muito ocupado nos últimos dias *carinha triste * Estou com saudades mais do que deveria confessar. 

Edward: Você está desviando o foco do assunto? Quer que eu vá encontrá-la agora mesmo? Estou doido para tê-la na minha cama de novo, seus cabelos ao redor dos meus punhos, sua coluna arqueada, suas bochechas coradas... Sei que estou trabalhando demais, acontece de tempos em tempos por aqui.

Eu: Oh! Irei cobrar tudo que descreveu aqui. Volte a trabalhar. Eu te amo. <3

Edward: Quero uma foto sua! Fique exatamente como está e me envie.


Dou uma risada e virando a tela do celular para mim mesma, tiro uma foto com o meu rosto encostado no travesseiro, uma confusão de lençóis ao me redor, um sorriso bobo e envio.

NOVEMBRO

Eu tirei as fotos necessárias e acabei postando-as em um site que criei, falando a respeito do meu trabalho e tudo que já tinha conquistado. As fotos ficaram lindas e separadas por temas e eu me diverti bastante trabalhando nelas: fiz fotos no estúdio, com o fundo branco e negro, com roupas e a cara séria, depois com sorrisos deslumbrantes, muito ar para deixar os meus cabelos esvoaçantes. Tirei também no Central Park e no próprio Brooklyn que tinha algumas ruas encantadoramente fotogênicas. Fiz alguns ensaios temáticos e um especial com movimentos de dança. Tirei fotos com meias coloridas e doces, chapéus, vestidos, tênis e sapatos, vestidos com tendências da moda para adolescentes e fiquei surpresa em ver como eu mesma parecia mais jovem no resultado. 

As fotos na praia ficaram extremamente conceituais, onde eu apareço de biquíni ou em uma saída de praia, com um vestido longo e esvoaçante, enquanto caminho pela areia. Edward tinha se apaixonado por uma, em especial, onde eu estava mais bronzeada, o mar como plano de fundo e um raio de sol passando entre os meus cabelos e um sorriso sincero, dando um efeito interessante.

As minhas preferidas foram aquelas em que eu mesma tirei do meu telefone – e do dele – de nós dois, guardando pequenos momentos: antes de acordar com os rostos inchados, um beijo na minha testa, eu fazendo caretas enquanto ele estava adormecido, ele risonho com os cabelos bagunçados fazendo caretas junto comigo, dando sorrisos sinceros. E também as que eu tirei enquanto ele não percebia: adormecido entre os lençóis, falando ao telefone, me puxando pela mão, saindo do mar. Depois de voltarmos de um jantar ou com os rostos corados de dançar, com bebidas nas mãos e todas, simplesmente todas que estávamos nos beijando.

E foi uma dele com o rosto enterrado no meu cabelo enquanto eu estava com o rosto encostado no seu pescoço que eu postei no Instagram. E a partir daí tudo começou a mudar.

DEZEMBRO

A cidade já estava toda enfeitada para o Natal e a minha adaptação aqui não poderia ser melhor. O escritório fecharia em 10 dias para as férias de final de ano e Edward já estava programando viajar para algum lugar bem distante dos seus pais.

- Definitivamente, não. Eu me recuso a passar outro Natal na casa dos meus pais, faremos alguma coisa nós dois. – ele bateu o pé a respeito e eu não tinha muito o que fazer. Grace agora ligava diretamente para o meu celular e parecia animada e feliz comigo, o que me deixava bastante satisfeita.

Fico aguardando do lado de fora enquanto entra na Starbucks para comprar um café e um chocolate quente para mim. Aproveito para publicar uma foto nossa no Instagram e imediatamente meu celular começou a apitar com as notificações do aplicativo. Algo incrível aconteceu quando eu comecei a postar fotos minhas na rede: eu tive um retorno incrível e Alice, vendo aí uma chama, me obrigou a postar cada vez mais. Publiquei fotos dos meus ensaios, com alguma roupa que eu achava bonita, bem maquiada e produzida, do meu dia-a-dia e Alice via em tudo uma oportunidade para me fotografar e sair por aí compartilhando. 

No início, eu achei bem estranho, mas depois eu fui me divertindo com os comentários das pessoas que pareciam se interessar por mim, por algum motivo. Eles gostam de acompanhar a minha rotina, que não é nada de mais e eu passei a compartilhar ainda mais de qualquer forma, incluindo pequenos vídeos meus dançando e esporadicamente, eu postava alguma com Edward. Aparentemente as pessoas se interessavam por ele também e por nós dois juntos, mas eu ficava enciumada com alguns comentários e preferia manter irregulares as postagens com ele.  

Ironicamente, eram as que mais tinham curtidas e comentários.

JANEIRO

Comecei o ano com as esperanças renovadas e com uma enxurrada de sentimentos amorosos, agradecendo a Deus pelas maravilhas que já tinham ocorrido na minha vida e sonhando para que mais alguns dos meus sonhos pudessem ser realizados. Eu comecei realizando um que estava mais ao meu alcance que era voltar a dançar. Um estúdio no centro de Manhattan foi a minha opção, pois ofereciam uma infinidade de modalidades de dança e eu ficaria quase que a semana inteira dançando, ou não. Bastava ajustar aos meus horários com as modalidades gostaria de fazer.

Edward me surpreendeu, falando que ficaríamos no seu apartamento (- Ficar em Nova York, tudo bem. Visitar o seus pais, nada bem. – resmunguei), e com isso eu insisti em decorar com enfeites e luzes para que fizesse jus à data.

- Eu não vou passar o Natal nesse apartamento sem nenhuma cor ou luz, desculpa. – rebati, batendo o pé quanto aos enfeites, que por ele eram dispensáveis. Sendo assim, saímos para comprar tudo que eu achava necessário.

No ano novo eu gostaria de ter ido para algum lugar mais distante, mas Edward voltaria a trabalhar logo acabassem as datas festivas, então, tivemos que ficar pelas proximidades mesmo. E no primeiro final de semana eu o arrastei para ver os pais, que estavam mais do que felizes em nos receber.

- Eu detesto quando você me obrigada a fazer algo que eu realmente não quero. – ele resmunga, enquanto dirige. Está bem empacotado e mais lindo do que nunca: um casaco de frio de um tecido bem quente, sobreposto por uma jaqueta negra, um cachecol e sua barba, que estava exatamente do jeito que eu gostava: grande. Os pelos já cobriam todo o seu rosto e eles eram castanhos caindo para o loiro, caminhando do claro para o escuro como se estivesse em dégradé. E ficava absurdamente sexy nele.

- Eu não estou te obrigando, eu apenas te convenci, é diferente. – digo me inclinando entre os bancos para beijar seu rosto e morder a pele abaixo da sua orelha. Ele dá um suspiro contido e eu rio. – Algum problema, meu amor?

- Apenas que eu quero parar a porcaria deste carro agora mesmo e me enterrar dentro de você. Eu estaria mais feliz do que dirigindo para a casa dos meus pais. – e fica tentando enfiar a mão por entre as minhas coxas, mesmo que eu esteja de vestido e exista uma grossa meia de lã pelo caminho.

- Não, não, não, não. Foco na estrada. – e retiro sua mão com uma risada.

O almoço foi surpreendentemente agradável e apesar dos apelos insistente de Grace que poderíamos ficar na casa e passar a noite, que seria mais seguro e todas as desculpas nos ter ali, parece que Edward é mais impaciente com seus apelos do que com os meus, então, voltamos.

FEVEREIRO

- Ei, onde você está? – ele chama, equilibrando uma caixa que saltou do topo da montanha de coisas que estavam empilhadas ali.

- Aqui. – eu digo para ele me descobrir pela minha voz dentro do meu closet, com um sorriso gigante. 

- O que seria isso tudo, mulher? – ele pergunta, dando uma volta e olhando ao redor do quarto para uma centena de caixas que chegaram para mim através do serviço de entrega de encomendas. – Como você trouxe tudo isso para casa e qual o cartão você usou para gastar com tanta coisa? E como, em nome de Deus, você precisa de tudo isso para viver?

- Não é demais? – e saio do closet, pulando nas suas costas, abraçando-o pelo pescoço com os dois braços, o rosto enfiado ali. – Várias empresas estão me mandando várias coisas, desde roupas, acessórios, maquiagem, sapatos, bolsas... essas maravilhas que mulheres gostam. Sem cartões, pode comemorar.

- Isso aqui é algo para o seu prazer? – ele questiona, intrigado, espiando dentro de uma das caixas e retirando uma babyliss. – Você não precisa disso, tem a mim. – e aponta para o objeto e depois para o meio das suas pernas.

- Isso deixa o meu cabelo ondulado quando ele está liso, Edward! – e dou gargalhadas e arranco da mão dele, abrindo e fechando a pinça, demonstrando. – Assim, ó.

- E por que você deixaria seu cabelo liso para depois enrolá-lo se ele já é assim? – ele parece verdadeiramente confuso e é tão fofo.

- Para não ficar totalmente liso. – e desço das suas costas, rodopiando e parando na sua frente, beijando-o. – Coisas de mulheres. 

- Eu não sabia que você recebia tantas coisas.  

- Nos últimos meses a quantidade vem aumentando. As primeiras eu deixei entregarem no seu apartamento, pois se algo acontecesse seria com você. – e saio correndo do seu alcance, quando ele tenta me puxar. Esbarro em algumas caixas da altura do meu quadril. Ele me alcança e eu dou uma gargalhada. – Mas depois eu passei o endereço daqui mesmo e elas estão chegando aos montes, Edward. Um monte de coisas de marca, outras tantas que eu nem sei sobre o que se trata, outras que eu nunca usarei e uma quantidade linda de sapatos! Uma companhia de dança do México me enviou as sapatilhas com o nome deles estampadas, é linda! – falo, mostrando-as para ele do outro lado do quarto. Ele ainda me persegue como um caçador.

- Mas o que você vai fazer com tanta coisa? – ele pergunta verdadeiramente curioso, tentando me encurralar de um lado da cama. Eu atravesso por cima, dando gritinhos quando o ouço me seguir.

- Eu mostro para as pessoas através de fotos. E mostro como usar e tudo mais. 

- É isso que você tem fazendo quando diz que não dá para ir para minha casa nos finais de semana? Tirando fotos? – ele reclama, com uma mão no quadril.

- Ahãm! – eu digo orgulhosa. Ele atravessa o quarto rapidamente e me abraça de encontro à parede. 

- Te peguei. – sussurra e então me beija carinhosamente, daquele jeito que eu gosto: segurando meu rosto com as duas mãos, direcionando minha cabeça, me deixando a mercê dele e de toda a sua deliciosa tentação. Eu me afasto levemente.

- Amo você. 

- Eu também te amo. 

- Preciso de ajuda para organizar isso tudo aqui. – eu digo enquanto ele empurra meu cabelo para longe do meu rosto.

- Estou indo embora agora mesmo! – ele diz, fingindo se afastar. Eu o agarro novamente.

- Nada disso. Vem cá que eu preciso de uma foto sua sendo meu escravo.

Corro para colocar o telefone posicionado em cima da cômoda no timer e então pulo em suas costas de novo, jogo a cabeça para o lado, puxo o pelo pescoço enquanto ele sorri e pega três das caixas pequenas em uma mão e com a outra pousa atrás do meu pescoço e a câmera dispara.

Edito a foto no próprio telefone e posto com a seguinte legenda: ‘Estava sendo soterrada por todas essas caixas aqui quando o meu super herói chegou para me salvar. Tenho o melhor ajudante do mundo. <3’

MARÇO


- Você dormiu. – eu comento como se fosse algo banal. Ele tem estado bem cansado nos últimos dias com a quantidade de trabalho no escritório e que tem trazido para casa, inclusive. - Eu sei – ele diz, bocejando, mas ficando exatamente do mesmo jeito na cama, apenas repousando os braços atrás da cabeça. O computador que ele estava trabalhando está ao seu lado com a tela desligada e vários papéis e pastas e envelopes jogados por cima da cama, com canetas, marcas textos, posts-its e tudo que ele precisa. E tiro os meus headphones e os deixo descansando no meu pescoço. - Como está o processo? – pergunto, me virando para olhá-lo. Sei que é algo bem sério, mas que ele não quer falar sobre o que se trata. É sempre assim quando eu pergunto a respeito do seu trabalho e eu meio que já deveria ter me acostumado, mas mesmo assim me incomodava um pouco que ele não me envolvesse nesse aspecto da sua vida. - Complicado. Não costumamos pegar causas criminais e toda vez que chega nessa etapa eu me lembro dos motivos. - E por que pegaram então? – pergunto realmente curiosa. - O dinheiro, claro. É um caso que está sendo bastante noticiado na mídia e os jornalistas estão em cima como urubus em carniça, o que apenas atrapalha, mas dá visibilidade para o escritório. Meu cliente irá ganhar, obviamente, mas mesmo assim eu me sinto esgotado. Assassinatos brutais sempre são temas bem complicados de serem tratados com frieza, mas bem, foi o que eu escolhi para trabalhar. - Sinto muito. – e pouso um beijo no seu peito. - Não sinta. Vou tomar um banho. – e retira todas as coisas da cama. Eu aproveito e vou até a cozinha e preparo um lanche rápido: coloco em uma pequena tigela açaí e algumas castanhas, faço um suco de frutas vermelhas, corto mais algumas em outra tigelinha e jogo uma cobertura de mel e, por último, um sanduíche com queijo. Essas são uma das coisas gostosas de compartilhar sua vida com outra pessoa: você começa a reparar em pequenos detalhes, como a comida que deixa seu companheiro mais feliz. Coloco tudo em uma bandeja e vou caminhando devagar e equilibrando para nada sair do lugar. Edward está se vestindo e não me vê entrando, mas eu vejo seu traseiro preenchendo a cueca preta e salivo. Adoro suas costas fortes e ombros largos. Ele se vira, surpreso em me ver ali, encarando-o. - Trouxe para você. Duvido que tenha comido muito hoje. – indico com a cabeça para ele sentar-se à cama enquanto eu levo a bandeja. Posiciono sob a cama e fico ao seu lado, observando-o comer. Ele percebe e me dá um sorriso com lábios roxos de açaí e logo depois se inclina e me dá um beijo. Come tudo enquanto eu fico tagarelando sobre nada em especial. - Eu posso te mostrar algo? – pergunto timidamente. - Claro que sim. – ele diz enquanto limpa os lábios e foca sua atenção em mim. – O que foi? - Alice me gravou hoje. – e pego meu próprio computador, digitando a senha para ter acesso. – Eu queria te mostrar. - Te gravou? Por quê? – ele questiona abrindo os braços para que eu possa me encaixar ali. - Nós estamos testando algumas coisas. Eu e ela estamos vendo vídeos de meninas, garotas, mulheres que também abre aspas “fazem sucesso na internet”, palavras da Alice. E ela acha que devemos começar a investir em vídeos também, então, testamos hoje. Abro o player com o vídeo, onde aparece o meu rosto sorrindo para a câmera. Eu já tinha visto esse filme de seis minutos mais de 30 vezes e conversava com Alice, enquanto ela editava, procurando por tutoriais na internet. Claro, ela incluiu mais algumas coisas que eu não sabia e o resultado era aquele. - Preparado? – Conecto nossos headphones e quando ele confirma, aperto o play. Meu rosto aparece na câmera e eu falo em inglês, com dificuldade em pronunciar algumas palavras, me corrigindo no processo, e com o sotaque bastante carregado. Os minutos vão se passando e eu observo como as pessoas me veem e já vou anotando mentalmente algumas manias para deixar de fazer imediatamente. Quando eu digo adeus e a tela fica preta, Edward me olha. - O que você acha? – pergunto ansiosa por sua opinião. - Porra, isso está com muito brilho. – ele diz fazendo surgir uma ruguinha entre as sobrancelhas. - Mas o que você acha por completo? – insisto. - Eu acho que está com muito brilho. – e coça a cabeça. - Tá, mas fora isso? - Eu acho que está com muito brilho e cheio de efeitos que não são necessários. De onde Alice tirou que o vídeo começar com a sua cabeça saindo dentro de um círculo em formato de tornado é atraente? - Estamos testando ainda e foi apenas o primeiro vídeo. – digo, cabisbaixa. – Eu falei para ela que isso não ia funcionar. - Ei, eu não falei que está ruim. Falei que está com muito brilho... e algumas coisas estranhas. – ri. – Mas você vai falar para mulheres, acredito que elas gostem de coisas assim. Você gosta? O que você achou? - Eu também achei que tem muita edição, muito brilho, muito tudo. Mas Alice insiste que tem que ser assim. Mas... eu gosto. Eu gostei de gravar. - Bem... sei como você é e não me deixará sair daqui se eu não falar honestamente o que eu acho. Achei muito sério, você não é assim. Você sorri com facilidade, tem aquela coisa jogar o cabelo para um lado enquanto conversa, faz expressões engraçadas quando não gosta de alguma coisa e seus olhos brilham quando fala de algo que realmente ama. E começou a apontar vários pontos e eu anotava rapidamente no computador. Ele foi atencioso e rimos muito de algumas coisas que eu também tinha achado bem estranhas, mas não tinha convencido Alice a tirar. Agora eu iria retirar muitos efeitos, nem que eu mesma buscasse por tutoriais e editasse o vídeo. - Como vocês gravaram? – ele perguntou. - Meu celular e o da Alice. Arrastamos os móveis e depois me posicionei e Alice foi colocando como acreditava ficar melhor. - Amanhã você me espera no escritório depois do expediente. Vamos comprar equipamentos de verdade para você. Eu o abraço: - Obrigada por ser tão... Edward. Ele dá play no vídeo de novo e comenta: - Se eu não tivesse você comigo todos os dias, ficaria vendo seus vídeos em looping para sempre. – e me dá um beijo na testa e depois outro na boca, antes de me puxar para o seu colo e arrancar minha blusa de alcinhas pelo pescoço. Antes de continuar, ele me olha: - Casa comigo? Eu apenas o puxo e continuo a beijar. *** O carro de Edward estaciona na garagem do prédio e descemos os dois para retirar as várias sacolas da B&H Photography: câmeras para fotografar e filmar, algumas lentes, tripés, rebatedores, luzes e quase um mini estúdio e várias coisas que eu não tinha a mínima ideia de como funcionavam, mas que os vendedores empurraram para Edward, com promessas de milagres audiovisuais. Estou me equilibrando em cima dos meus sapatos e puxando as sacolas quando eu ouço um barulho estranho e viro a cabeça em direção ao barulho, olhando atentamente o garagem privada. - O que foi? – Edward pergunta, me vendo encarar o nada e me puxa para perto de si, preocupado. – O que está vendo, Bella? - Eu pensei ter ouvido... um barulho. – comento, ainda procurando. Não encontrando, continuo a retirar as sacolas. Ouço novamente. Não estou enganada. Largo as sacolas dentro do carro de novo e atravesso decidida e encontro: um filhote de cachorro largado em um canto da garagem, dentro de uma caixa de papelão. - Te encontrei! – exclamo. Edward se aproxima quando eu o tiro de dentro da caixa. O filhotinho me olha com uma carinha assustada. - Não vou te machucar, seu lindinho. Nós vamos cuidar de você. - Como é? – Edward dá um passo para trás. – Não vamos cuidar da porra de um filhote, Bella. - Tudo bem, eu cuidarei de você, seu lindinho. – digo, acariciando sua cabecinha peluda. Ele é castanho e tem o rosto quadrado, suas orelhinhas gigantes caindo ao redor do rosto. - Isso não pode estar acontecendo. – Edward resmunga. – Não vamos pegar filhote nenhum, Bella. Você nem sabe de onde veio esse animal, se está doente, se tem dono. - Ele não tem dono, Edward, ou não estaria largado para morrer. Olha a carinha dele – digo, com aquela vozinha que destinamos aos animais e bebês e tentando enfiar o filhote no seu rosto para que ele possa enxergá-lo melhor. - Eu não quero esse verme dentro de casa. – e se afasta, catando novamente as sacolas. - Eu irei embora, então, para cuidar de você, não é meu amorzinho? – digo de maneira doce para o filhote e lançando meu olhar mais gelado para Edward. – Eu não vou deixá-lo. - Sim, Bella. Por que o que me faltava era apenas isso: um verme doente e imundo dentro do meu apartamento! – ele esbraveja, cedendo. Dando pulinhos, eu o aconchego junto ao peito. *** - Eu vou tomar um banho. Você pode cuidar do Manchinha durante alguns momentos? – pergunto enquanto desabotoa a camisa de botões, jogo os sapatos altos para o canto e viro de costas para ele abaixar o zíper da saia. - De onde você tirou esse nome? Nós não vamos ficar com o filhote, Bella. Quando se dá o nome, começa a criar sentimentos e eu não tenho absolutamente nenhum por este animal. - Eu irei ficar sim! – digo, teimosa. – Ele não tem um lar e eu o encontrei, é meu agora. – rebato, não falando que enquanto arrumava o meu bichinho dentro de uma caixa de sapatos forrada com alguns paninhos que eu encontrei na dispensa e algumas meias de Edward, tive uma inspiração para o nome. Edward estava de costas para mim, arrancando a camiseta e se preparando para um banho, claramente chateado com o filhote que eu tinha posicionado ao lado da porta do quarto, e eu vi suas pintas, tão evidentes até ali distante de mim. – Pode ou não? - Vai, Bella. Banhe rápido ou corre o risco de quando voltar esse animal não está mais aqui. – ele ameaça, vestindo apenas uma cueca e saindo do quarto. Berro pelo corredor: - Se você encostar um dedo no Manchinha eu nunca vou te perdoar, Edward! E você vai ficar pelo menos seis meses sem sexo, seu arrogante de merda! Entro correndo dentro do banheiro e tomo o meu banho o mais rápido que eu posso. Com uma toalha enrolada na cabeça e outra no corpo, adentro o quarto e vejo Edward olhando para o filhote dentro da caixa de cima, do seu jeito superior. Balança a cabeça de um lado para o outro como não acreditando que um filhote pudesse estar ressonando em seu quarto. *** - Está na hora de acordar! – ele puxa os cobertores de mim, sem nenhum pouco da sua simpatia habitual. Eu resmungo, me espreguiço e levanto da cama. Olho através da janela e vejo que é bem cedo, Edward está vestido e barbeado e com cara de poucos amigos. - Vamos levar esse verme para ser cuidado antes que eu e você precisemos de cuidados. - Tem alguém aqui de mau humor? – eu pergunto, enquanto amarro meu cabelo em um coque bem alto e despenteado no topo da cabeça, ainda sonolenta. - Mau humor? Por que eu estaria com esse sentimento tão negativo e intransigente a essa hora do dia? Você acha que eu tenho motivos? – ele pergunta daquele jeito irônico e bem Edward que eu conheço. Não querendo criar mais confusão, eu apenas suspiro e vou até o banheiro escovar os dentes e trocar de roupa. Antes, passo por ele que está terminando de se organizar para o trabalho e lhe dou um beijo no rosto. - Bom dia, meu amor. – e saio rebolando. É assim que você desarma pessoas que estão prontas para a batalha. Quando volto, Manchinha e sua caixa sumiram e, desesperada, vou atrás de Edward. Se ele tiver mexido com o meu cachorro, a confusão vai ser séria! - Cadê o meu cachorro? Ele me olha atentamente, com uma xícara no ar, como se avaliando se eu mereço ou não saber. - Seu mini verme está devidamente isolado na área de serviços. Caminho, decidida, até ali e quando chego, Edward fez uma barricada com baldes, panos, empilhou produtos de limpezas, vassouras, cestos e tudo que ele encontrou pelo caminho e colocou meu filhote ali no meio, que estava com uma carinha assustada, triste e ansiosa ao mesmo tempo. Eu quis rir e matá-lo ao mesmo tempo. *** - Vamos levá-lo ao veterinário, cuidar, pagar e deixá-lo lá. É muito sério, eu não preciso de mais um problema com um filhote. - Ele não será um problema para você, Edward. – sou bem irônica. – Eu ficarei e cuidarei dele. - Não ficará. – ele teima. - Como é que é? – eu questiono, girando meu corpo para o seu lado e encarando seu perfil tenso. O meu tom é de ‘quem você pensa que é para me dar ordens?’ – Acho que não entendeu: eu vou ficar com o filhote. - Eu não o quero no apartamento. - Eu tenho um também, esqueceu? - Você irá morar comigo em algum momento. - Estou achando bem difícil isso acontecer. - Eu não o quero. – ele teima, ignorando minha resposta anterior. - Então teremos um problema não é mesmo? Porque se eu não posso ir com ele até você e na minha casa ele viverá, como você quer resolver essa matemática? - Por que você tem que ser tão teimosa? Parece que todas as vezes que eu falo que não quero algo é quando você mais se interessa em tê-las! - Talvez você devesse fingir menos interesse ao invés de ficar ditando ordens por aí. Resultado: descobri que meu cachorrinho é uma linda beagle de 2 meses, com início de subnutrição, precisando das vacinas, comida, amor e carinho. Ainda bem que Manchinha era um nome comum para os dois gêneros. Ignorei Edward pelo resto da consulta, tirei todas as dúvidas com o veterinário e prometi seguir todas as indicações, comprei tudo que eu precisava para manter uma filhotinha em casa e saí com ela dentro de um cestinho, devidamente banhada e com um lacinho na cabeça para identificá-la. - Eu vou ao trabalho. – ele disse, claramente distante e eu buscando em seu rosto se a minha afirmação de que ele estava realmente chateado pela minha decisão era real. Sim, era. - Tudo bem. – dei-lhe um selinho nos lábios, chamei por um táxi e fui para meu apartamento no Brooklyn pensando que essa minha relação com Edward realmente tinha altos e baixos e que eu não cansava de me surpreender com ele. *** Alice, como já era de se esperar, se apaixonou perdidamente por Manchinha. Abraçou e apertou, aconchegou e afofou seus mini cobertores quando a depositou com cuidado na caminha recém-comprada. Isso tudo já estava devidamente compartilhado e fiquei feliz em saber que outras pessoas, que sequer me conheciam, ficaram felizes por eu ter mantido minha cachorrinha enquanto Edward estava emburrado e fazendo um drama desnecessário. Ele não mandou mensagem ou telefonou durante o dia inteiro e a noite apenas me ligou falando que já estava no apartamento, mas sem convites para que eu me juntasse a ele. Eu falei normalmente sobre tudo que eu tinha feito durante o meu dia e me despedi, sentindo a indiferença distante. Não o forcei a nada, mas também não ia aceitar suas decisões, principalmente quando impostas. ***

Os próximos dias se passaram exatamente assim, Edward birrento e Manchinha se adaptando a sua nova casa. Ela é fofinha e eu me acostumei a acordar e tê-la lambendo meus dedos dos pés enquanto eu preparo o café da manhã, dando pequenos latidinhos, tropeçando pelo tapete e rolando e os pequenos passeios pelas ruas no colo.

E detestava que ele estivesse tão furioso por causa disso e tentando contornar a situação, resolvi esperá-lo depois do trabalho para jantar. Pedi para que Tania não avisasse que eu estava ali e fiquei esperando que ele saísse.

- Tania, amanhã eu tenho uma reunião às 11h, tenta remarca-la para tarde, pela manhã eu ficarei trabalhando sem interrupções por aqui e avisa ao Emmett que eu preciso que ele esteja aqui bem cedo.

Ele ainda estava lindo de terno, mesmo no final do dia e com uma leve cara de cansaço. Quando me viu levantar, me olhou surpreso.

- Oi. – falo e me aproximo para dar-lhe um beijo. Ele pousa a mão na minha cintura, me trazendo para mais perto. – Pensei que poderíamos sair para jantar. O que você acha?

- Claro. – e saímos os dois dali em direção ao elevador.

Ele sugere um restaurante tailandês e, curiosa, aceito. Sento-me ao seu lado e conversamos, a conversa e a comida está bem saborosa e rimos e eu falo que fui até a escola de dança que tinha falado com ele antes e que já tinha voltado a ensaiar. 

- É diferente dançar aqui, mas eu estou simplesmente tão feliz. O espaço é grande, tem estrutura e eu estou bem animada! E também podemos levar parceiros para dançar conosco. – falo com um risinho, olhando-o de lado.

- Sei. Posso me esforçar para acompanhá-la uma ou duas vezes.

- Mais vezes! Faz muito, muito, muito tempo que eu não o tenho como aluno. – e o beijo no pescoço.

- Isso é verdade.

Ele dirige calmamente pelas ruas, cantarolando Frank Sinatra, e não me pergunta se deve me levar para casa, o que eu entendo como o sinal de que me quer com ele esta noite. Desde o dia que voltei para casa com Manchinha que apenas nos falamos, não nos vimos e também não fui convidada para estar ao seu lado. 

Ele estaciona na garagem e agarra minha mão quando subimos para o apartamento e assim que adentramos, a música começa a soar pela casa e me puxa para os seus braços e rodopiamos pela sala. Estou quase da sua altura por causa dos saltos enormes nos quais estou equilibrada, mas não me importo. Esses pequenos gestos de Edward me transmitem tanto amor que eu apenas quero ficar aqui, rodeando-o com os meus braços, beijando-o e sentindo seu corpo colado ao meu. Encosto a cabeça no seu ombro e me deixo ser embalada.

Ficamos juntos a noite inteira e não teve aquele amor voraz que nos cerca geralmente. Hoje é tudo muito tranquilo, com carícias e sussurros sendo trocados, apreciando o corpo um do outro, amando de maneira lenta e calma. Acaricio seu tórax com as pontas dos dedos, fazendo desenhos imaginários na pele, beijando seu pescoço na minha parte preferida.

- Você deveria descansar, eu o ouvi dizer que chegará cedo ao trabalho. – digo entrelaçando minhas pernas nas suas.

- Eu deveria. – ele diz com os dedos afundados nos meus cabelos, os olhos fechados. – Mas isso é tão bom, ficar aqui com você. O mundo ideal seria onde isso aconteceria todos os dias.

- O mundo ideal para mim é estar com você.

- O mundo ideal é você me amar.

- Você tem o seu mundo ideal. – e sonolenta, acrescento: - Quando acordar, me chama. Sairei junto com você.

***

- Oi, Alice. Você pode dar um pouquinho de comida para Manchinha? Eu estou voltando para casa, mas ela come bem cedo. Tudo bem... muito obrigada... não, não, eu vou passar aí rapidamente, estou indo para o estúdio. Ok, conversamos aí. Obrigada, baby! Tchau. – e pressiono a tela para desligar o celular.

Edward fica calado e eu o sinto irritado.

- Tudo bem. Qual é o problema?

- O problema é você estar me desafiando por causa de um maldito cachorro!

- Eu não estou te desafiando, Edward! Por que você sempre tem que pensar que tudo gira ao seu redor?

- Eu não acho que tudo gire ao meu redor, mas eu trabalho de maneira que evite problemas futuros e não fico buscando por eles, como exemplo, trazendo um maldito cachorro para dentro de casa. Você tem noção que ele vai crescer? Vai ficar enorme, latir, perturbar e incomodar? Onde você vai ficar quando os seus vizinhos reclamarem? Vai ficar na rua e voltar junto com ele para onde o encontrou?

Foi como se eu tivesse recebido um tapa na cara.

- Sabe o que eu acho mais engraçado? – falo tentando acalmar minha voz que treme de raiva. – Eu não pedi sua opinião nem a sua ajuda a respeito do maldito cachorro ou verme, como você está falando. E caso algum dia os meus vizinhos estejam reclamando ou ela estiver muito grande ou qualquer coisa do tipo, acho que poderia encontrar uma solução. Da mesma forma que eu venho encontrando nos últimos oito meses para todos os meus problemas.

Eu quero chorar e sei que é besteira da minha parte, mas... mas... Estou tão nervosa! Começo a passar as mãos pelo o cabelo, respiro fundo tentando me acalmar.

- Eu não acredito que estamos discutindo a respeito de um filhote de cachorro abandonado! – ele diz, apertando firmemente o volante, sua mandíbula travada, sua raiva incandescendo. – Estamos os dois malucos, fugindo do controle!

- Eu não acredito que você está fazendo tanto caso quanto a isso. Obrigada pela noite de ontem. Teria sido muito mais interessante se tivesse mantido a sua personalidade agora e não estragado tudo sendo um babaca. E obrigada também, mais uma vez, Edward, por me lembrar de algumas coisas que eu esqueço de tempos em tempos.

Salto do carro e caminho pela rua quando ele para em um sinal vermelho e vou em busca da estação de metrô mais próxima, onde sei que ele não vai me seguir. Meu telefone vibra, mas eu apenas ignoro a ligação.

***

O telefone começou a vibrar com as mensagens de Edward, que eu tentei ignorar, mas chegavam aos montes. Primeiro ele tentou ser o Edward mandão que tanto me irrita.

Edward: Atende a droga do celular!

Edward: Bella, pode parar de ser infantil e pelo menos atender a porra do telefone? 

Edward: Eu sei, porra, que eu sou um IDIOTA, mas eu quero conversar.

Edward: Eu odeio quando você me ignora como se eu fosse uma criança de 5 anos. Somos adultos e não era pra resolvermos nossos problemas?

Depois ele partiu para a outra estratégia: desculpar-se por ser um idiota e me preocupar.

Edward: Quero pedir desculpas.

Edward: Eu tenho uma reunião a tarde e não consigo me concentrar pensando que te magoei.

Edward: Eu sinto muito. 

E, por fim, ameaças sem um fundo de verdade. Eu não duvidava que ele pudesse aparecer aqui derrubando a porta, mas não iria querer correr o risco de me chatear ainda mais.

Edward: Se eu não tiver uma resposta sua, irei até aí.

Edward: Isso é sério. Em trinta minutos eu estarei aí e se eu tiver que derrubar a porta ou saltar a janela, farei isso.

Eu: Não irei atendê-lo e eu estou bem. Acho que não é o melhor momento para estarmos juntos. Quero me acalmar antes de ouvir o que você tem a dizer.

Edward: Quero me desculpar. Você sabe o quanto eu te amo e odeio a mim mesmo quando ajo como um idiota. Por favor, venha até o apartamento hoje à noite.

Eu não respondo.

No dia seguinte eu mantenho minha rotina e resolvo tudo que eu tenho para fazer. Voltar a dançar alivia a minha mente e meu espírito e no estúdio que eu estava dançando agora tinham aulas contínuas de stiletto e vendo as bailarinas ali dançando, fiquei tão encantada que comecei a acompanhar. Claro que eu também busquei algumas referências na internet e eu me sentia poderosa em cima do salto ou apenas dançando descalça ou de sapatilhas específicas. Eu dividia o meu horário entre três tipos de aulas por semana, mas hoje, em especial, queria ficar ali o dia inteiro e quando saí, a noite já estava aparecendo. Conferi meu telefone e tinha várias mensagens de Edward e ligações perdidas.

Edward: Por que não atende a droga do celular?

Edward: Onde você está? Quero te ver.

Edward: Bella, eu já estou ficando cansado de ser ignorado. Espero que a sua birra passe em 24 horas ou não vou responder pelos meus atos. Se você me quer nervoso, me mantenha longe e terá uma bela surpresa.

Edward: Caralho, mi estrella. Eu sinto a sua falta e estou preocupado.

Rapidamente digito uma resposta.

Eu: Estava no estúdio, desculpa, voltando para casa. Não estou fazendo de propósito. 

Edward: Ficou durante todo esse tempo lá?

Eu: Sim, precisava me distrair de algumas coisas, imagino que você lembre como dançar me acalma.

Edward: Posso ir vê-la?

Eu: Não pressiona.

***

- Está tudo bem? – Alice pergunta na manhã seguinte. – Você parece distante.

- Edward. – é a única coisa que resmungo enquanto termino minha maquiagem. Alice insiste para que eu faça algumas fotos com Manchinha e está preparada o ‘estúdio’ que montamos, que no caso é um pedaço da sala em que afastamos os móveis e colocamos todo o equipamento.

Verifico minha agenda virtual e vejo que daqui dois dias eu tenho algumas fotos de um catálogo para fazer e já vou me organizando para esse compromisso. O dia passa tranquilo e sem mensagens do Edward. No final do dia, estou fazendo um pequeno jantar quando Alice passa esbaforida por mim.

- Jasper e ligou agora falando que tem uma surpresa e você sabe o quanto eu amo surpresas! Provavelmente não volto hoje, te amo! – e bate a porta.

Fico olhando para o lugar por ela saiu pensando no furacão que Alice é. Enquanto termino de cozinhar, abro a lista de músicas no meu celular e enfio meu pé em cima do meu sapato stilletto e enrolo o tapete da sala para que eu tenha espaço de sobra. Existe um espelho que Alice colocou do outro lado, então, consigo me movimentar e enxergar meus movimentos. Não de maneira completa, mas pelo menos ajuda.

Manchinha está deitada em sua caminha ao lado do sofá.

Meia hora depois a campainha toca e estou ofegante ensaiando a coreografia. Abro a porta sem nem me preocupar... Edward está encostado no batente, seu semblante sério, os olhos faiscando.

- O que você está fazendo aqui? – pergunto verdadeiramente curiosa.

- Eu sou seu namorado.

- Bem, sim. Você é, mas eu pedi espaço e achei que você fosse respeitar.

- Eu não quero ficar sem sexo.

Eu o encaro, incrédula.

- O quê?

- Você disse que eu ficaria seis meses sem sexo e estou com a impressão que essa contagem já começou. Vim terminá-la agora.

- Você veio até aqui me pedir perdão não porque me ama e sabe que foi um babaca, mas porque seu pau tá duro e você precisa de alívio? Vai precisar mais do que isso, seu idiota arrogante.

Bato a porta na cara dele.

- Mulher, o que você quer que eu faça? Eu sinto a sua falta e me sinto um babaca gritando isso aqui no seu corredor. Todo mundo está ouvindo. Me deixa entrar e eu falo exatamente para você que eu quero jogá-la na cama, arrancar a sua roupa, beijar seu pescoço, cruzar suas pernas ao redor da minha cintura enquanto... – ele é interrompido.

Abro a porta rapidamente e o puxo para dentro.

 - Não acredito que você estava gritando tudo isso no corredor do prédio!

- É apenas a verdade. – ele responde com um sorriso torto e lindo. – E eu te amo. Você não me deixou concluir. Quer casar comigo, aproveitando o momento?

Eu apenas o olho com arrogância, não acreditando no que ouço, depois o ignoro e começo a mexer em coisas desnecessárias na cozinha, apenas para não encará-lo, resmungando em espanhol, um hábito que eu recém adquiri.

- Você está xingando. – ele observa.

- Que perspicaz. – resmungo do meu canto, fingindo fielmente que ele não está ali.

- Dá para você parar de mexer em tudo isso apenas para me evitar e prestar atenção? – ele pede, com a voz alterada.

- Tudo bem. – bato com a mão no balcão, encarando-o. – Estou aqui para te ouvir.

Seu olhar faísca e percebo que ele está analisando toda a situação, verificando maneiras de ganhar. Esse é o Edward: competitivo, dominante, crítico.

- Eu estou puto com toda essa história, cansado de correr atrás de você e estressado por como ficamos depois de tudo isso. – ele já inicia seu discurso com tudo que me irrita em toda essa situação.

- Ah, é? Você está cansado e estressado? E eu estou feliz e saltitante? – digo irônica. – Bem, se eu for falar como estou me sentindo neste momento, você iria embora agora mesmo para me deixar em paz!

- Você sempre quer que eu me afaste e diz coisas desse tipo, sabendo que detesto quando isso acontece! Por que não podemos conversar, como pessoas normais e resolver? – ele está me encarando do outro lado do balcão, tão furioso quanto eu.

- Bem, Edward. Sabe por que não podemos? – me inclino e o encaro. - Por que eu sempre tenho receio de falar mais do que eu devo, e no auge da discussão, me magoar e te magoar. Eu quero espaço, mas você sabe o que é isso? Não! Pois se soubesse estaria aqui? Não, não estaria!

Ele dá a volta e para na minha frente, sua respiração se misturando com a minha, me olhando cara a cara, pois estou quase da sua altura por causa do salto, ele não precisa se inclinar.

- O que você gostaria de falar para mim e não fala? Não quero que me esconda o que sente. – ele diz muito perto, invadindo meu espaço pessoal, aquele espaço que eu tenho que manter sempre neutro quando o seu cheiro me invade e seus olhos ficam naquele tom verde que tanto me seduz: quando ele me ama.

- Sinceramente? Não vale a pena. – e passo por ele em direção a sala. Eu quero apenas que ele vá embora e eu possa me deitar, ler um livro antes de dormir, descansar minha mente de todo esse conflito. Mas, bem, estamos falando de Edward.

E eu não sou rápida o suficiente: me segura pelo cotovelo, de maneira que não me machuca, mas me obrigada a olhá-lo.

- É claro que vale a pena, Bella. Eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo, contudo, devemos lidar com isso junto. Sinto como se tivesse que ficar carregando os problemas nas costas toda vez que me evita! Sem contar nessa porra que você faz que é ficar fugindo. Isso me enlouquece mais do que tudo! – ele responde exasperado.

- Não me dê motivos para querer fazer isso, Edward! - e me afasto. - Toda vez é a mesma coisa: você não gosta de algo que eu faço, tenta impor, eu me recuso e o enfrento, você é gentil, depois fala algo para me magoar, eu vou embora e então acabamos aqui, tendo essa conversa alterado e furiosa porque não sabemos lidar com os nossos problemas e emoções no início de tudo, antes de virar toda essa confusão! Sinto muito se a única coisa que eu quero fazer quando você age dessa maneira é me afastar.

Eu vou até a sala, descalço os sapatos e o largo de qualquer forma perto da porta, então me agacho e desviro o tapete para que ele fique no lugar e sinto as lágrimas florescerem nos meus olhos. Sei que é idiota, mas odeio essas situações de conflito e ter que lidar com elas quando Edward está sendo tão irracional apenas me faz recordar lembranças detestáveis. Odeio me sentir assim.

Ele vem por trás de mim e me abraça. Poderia resistir? Poderia, mas apenas limpo minhas lágrimas rápidas, controlo minha respiração e minha mente e me deixo ser envolvida. Ele apoia o rosto no meu pescoço, dando pequenos beijos ali. 

Vou recordar quanto tempo ficamos ali? Claro que não. Podem ter sido minutos ou segundos, mas eu estou esgotada e sinto a falta dele. E é esse jogo de esquecimento que me escraviza. Eu quero falar: ‘tudo bem, vamos esquecer o que passou e seguir em frente’ só que o ‘MAS...’ aparece na ponta da minha língua para acrescentar tudo que é necessário.

- Eu não posso lidar com você dizendo o que eu posso ou não fazer, Edward. – eu digo, virando para encará-lo e dando um passo para me afastar do seu toque que me deixa quase que embriagada, mesmo no momento de raiva. - Eu sou adulta, não tenho 14 anos e sei viver a minha vida. Você está aqui para compartilhar tudo isso comigo, ser meu companheiro e amigo, o amor da minha vida, a pessoa que confio. Não me importo em ouvi-lo, pelo contrário, amo ouvir suas opiniões e você sabe disso! Mas não posso admitir que diga o que posso ou não fazer. Isso nunca.

- Não se afasta de mim. – ele diz, puxando-me para o seu corpo, dando um leve beijo em meus lábios. – Eu ultrapassei os limites, só que você é a criatura mais exasperante que eu conheço!

- Dê-me motivos, você é o advogado aqui, quando quiser me fazer desistir de alguma coisa. Me mostre que eu estou errada, que tem possibilidades de não dar certo, que você acredita que não é a melhor opção. Existem tantas maneiras de tudo isso acontecer!

- Eu sei. – ele, por fim, se rende.

- Não quero ficar apontando quando está errado ou quando eu estou. Só quero que possamos conversar sobre a situação antes que acabe nisso tudo. Eu odeio muito mais, pode acreditar. Quando eu peço espaço, é porque eu realmente necessito dele. Prometo que voltarei e falarei com você assim que me acalmar, não vou ser infantil e ficar evitando-o por horas e dias. – digo, tentando soar pacífica. Abraço-o pelo pescoço e o atraio para mim, seu corpo firme, cheiroso e cheio de amor para mim.

- E o cachorro? – ele pergunta.

- Ela fica. – digo determinada.

Ele respira fundo. – Por quê?

- Me diga você porque não ficaria. – rebato e olho para Manchinha que parece alheia a situação, deitada com as patinhas para cima e a cabeça inclinada, sua barriguinha tão saliente e estufada de comida.

- Esse cachorro vai crescer. 

- Só isso? Você também cresceu e cá está, comigo. – digo rindo.

- Há, há. Bem engraçado. 

- Tudo bem. Mas acho que isso não é argumento forte o suficiente para abandonar minha cachorrinha as ruas de novo.

- Eu... eu não sei. Algo me incomoda em um animal de estimação: ela terá espaço suficiente para crescer e quando concluir essa fase, qual será o seu tamanho? Te perturbará de alguma forma? Qual a quantidade de trabalho que ela pode dar?

- Edward: é apenas um cachorro, não uma criança. Tenho que cuidar dela e dar amor, mas o que ela pede em troca é apenas carinho, cuidado e amor também. Eu tenho certeza absoluta que ela fará mais bem para mim do que o contrário. Os cachorros não pedem um contrato assinado, eles apenas amam sem reservas. Tenho certeza que será assim também.

- Ok. Ainda bem que Verme é comum dos dois gêneros.

Eu rio.

- Sim, ainda bem que a Manchinha agora é aceita por você. – e o beijo profundamente. Quando me afasto, fico curiosa: - Você tem algum pavor de cachorros? Naquele dia na cabana você ficou tenso quando eu encontrei o cachorro na parte detrás da casa.

- Eu nunca tive um animal. – ele confessa, me arrastando até o sofá.

- Podemos ter juntos, eu divido a Manchinha com você. – me desvencilho rapidamente dele, corro até onde minha filhotinha está, a pego com carinho e volto a me sentar ao seu lado. - Ela tem amor para nós dois, olha! – enfio o filhote no seu rosto e ele a afasta, encarando-a avaliativo.

- Eu posso me acostumar com isso. – ele diz vencido. Manchinha, parecendo perceber que tinha conquistado mais um coração, tenta alcançar seu rosto para lamber. 

ABRIL

- Casa comigo hoje? – ele pede mais uma vez, dando o seu melhor sorriso.

- Não, ainda. – respondo com o mesmo sorriso. Essa era ainda uma questão frequente, nos momentos mais inusitados, para não dizer, impróprios.

Edward irrompeu momentos antes pelo seu apartamento enquanto eu estava no quarto que ele tinha reservado para os meus treinos, ensaiando algumas coreografias de dança do ventre e equilibrando uma espada no quadril quando ele entrou, me dando um susto e me empurrando contra a parede de espelho.

Quando consegui afastar meu rosto para respirar e tentar regular minha respiração que já estava descompassada com o ensaio e com o seu assalto, eu só tive tempo de olhar e tentar questionar o que estava acontecendo.

- O que aconteceu...? – comecei, mas ele segurou minha cabeça e uniu nossas bocas, me deixando lânguida, empurrando as camadas de roupas para fora do seu corpo e dando gemidos em sua boca. Sua língua penetrava a minha de maneira lenta e sensual e depois de arrastar as mãos da minha nuca até as minhas coxas, me grudou em seu quadril e me levou para fora dali.

Eu simplesmente amo quando ocorrem esses ataques surpresas e demonstrações de amor e constantemente ele me surpreendia assim. 

- Eu tenho a esperança que se continuar a perguntar de surpresa, você vai acabar respondendo que sim por engano e eu vou simplesmente arrastá-la para poder tornar o meu sonho real.

- Obrigada por contar os seus planos, ficarei mais atenta aos seus ataques e ao que me pergunta e, principalmente, ao que respondo. – digo me encaixando em seus braços.

- Eu não vou perder as esperanças, mi estrella. – ele diz, alisando os meus cabelos e eu acabo caindo no sono.

Em algum lugar da minha mente, eu o ouço perguntar: - Casa comigo, Bella?

Mas eu nego apenas com a cabeça e ele dá um beijo nos meus dedos, me puxando para seu corpo.

MAIO

- Edward! – grito correndo pelo corredor. – Ei, acorda! – e pulo em cima dele, sacudindo toda a cama e fazendo com que ele rolasse para o meu lado.

- Mulher, espero que algo realmente importante esteja acontecendo para você me berrando pela casa às... – ele abre apenas um olho e visualiza as horas no celular. – DEZ DA MANHÃ DE UM SÁBADO!

Eu estou radiante, com os cotovelos enterrados na cama e o queixo apoiado nas mãos. Aguardo que ele me pergunte o que está acontecendo. Ele volta a dormir.

- Ei, ei, ei! Acorda! – e o viro, sentando em cima do seu quadril. Ele geme. – Preciso de você bem acordado para o que eu tenho a falar. Está prestando atenção?

- Eu estou bem acordado agora que você está em cima de mim. – e se inclina e me dá um beijo. Eu tento fugir, mas ele ri e me segura bem forte junto ao corpo. – Diga por que eu mereço o prazer da sua companhia a essa hora da madrugada e bem acordado.

- Acabei de receber um e-mail. – respondo animada, empurrando seus cabelos para longe da testa do jeito que eu me acostumei a fazer. Rapidamente eles retornam ao mesmo lugar.

- E...? – ele me diz, com um sorriso sonolento, mas prestando atenção no que eu vou dizer. Isso é algo tão particular nosso: toda vez que o outro vem falar a respeito de algo realmente importante, a nossa atenção estará totalmente no outro, independente do que estamos fazendo, paramos para ouvir e prestamos atenção. 

- A Alvin Ailey American Dance Theater me pediu para ir até lá na segunda-feira para uma entrevista e possível teste! – exclamo, me jogando em cima dele e o abraçando, rindo.

- Meu amor, isso é maravilhoso! Eu já estava ficando estressado de você não conseguir dançar em canto nenhum nessa cidade! É sempre a mesma coisa: não é perfeito para dança, não consigo me concentrar, blá blá blá e ainda tive que ouvir que não era bom o bastante para tentar acompanhá-la. 

Já tinha alguns meses - outubro, novembro, fevereiro, abril, maio, para ser mais específica - que eu estava indo pessoalmente me apresentar em pequenas e médias academias de dança em Manhattan e também no Brooklyn em busca de emprego. Com o meu currículo de dançarina, eu estava confiante que conseguiria algo rápido, mas não foi o que aconteceu. 

Eu não desisti.

Eles diziam não estar precisando de alguém no momento e me dispensavam. Eu não queria pensar que era porque eu sou estrangeira, já que a cidade se mostra tão bem receptiva com pessoas do mundo inteiro. Quando a Alvin Ailey American Dance Theater abriu um processo seletivo, me inscrevi com o coração palpitando entre as costelas e a esperança que não iriam me dispensar sem antes me avaliarem de verdade. 

Deu certo.

- Eu estou flutuando! Seria uma excelente oportunidade aqui em Nova York de mostrar que eu sei e tantas pessoas têm oportunidades. Mas eu penso que exatamente por isso é tão complicado e difícil e têm tantas pessoas tão talentosas buscando pela mesma oportunidade e meu coração vai parar nos pés e eu sinto como se tivesse com cólica, batido o dedinho do meu pé, dor de cabeça, carregado uma tonelada e...

- Ei, ei! – ele se move pela cama. – Calma, mi amor. Sei o quanto isso é importante para você e vai dar certo. Se não der, tentará novamente, novamente, novamente, novamente. Você tem talento e algum momento alguém vai reconhecer isso. E vai ser rápido, eu tenho certeza. – e dá um beijo na ponta do meu nariz, enquanto acaricia meu cabelo, me puxando para perto do seu corpo.

 - O mais importante é que dessa vez eu irei encontrar um bailarino a minha altura! – comento. Olho para seu rosto para ver sua reação e ele está com os olhos arregalados com a possibilidade. Gira na cama e me prende embaixo do seu corpo.

- Isso não será uma verdade.

JUNHO

Claro que nem tudo é perfeito, já que estamos falando de Edward. E de mim mesma também, claro. E de nós dois juntos, pois estávamos aprendendo a conviver a dois e que relacionamentos duradouros que tem que passar por alguns testes de resistência.

As brigas não eram constantes, ao menos, mas apareciam de tempos em tempos. Nem chegavam a ser brigas, mas discussões na qual cada um queria mostrar seu ponto de vista. Algumas bobas, outras medianas. Não sei se alguma foi séria, pois inacreditavelmente eu estava sendo bem mais tolerante com as suas manias, assim como ele com as minhas. Alguns exemplos claros:

- Ele está sempre ao seu lado quando eu ligo, eu o ouço rir pelo seu telefone, Bella! O que você quer que eu pense? Ele está próximo de você o bastante para que eu o ouça daqui! – ele teima.

- E eu estou falando para você que não existe nada. – já perdi as contas de quantas vezes repeti que Brian é apenas um novo colega no estúdio. Edward não acredita nada nisso e começou a implicar. Se eu realmente acreditasse que ele quer algo a mais comigo do que apenas conversar e ser companheiros de dança, eu mesma já teria me afastado. 

Mas Edward não enxerga assim.

- Eu não quero você com ele. – teimoso, rebate no telefone.

- Tudo bem. – respondo, não querendo dar continuidade a discussão.

- E eu te espero no apartamento hoje à noite. 

Essa mania de querer ditar o que eu faço me irrita profundamente.

- Claro. – e respiro fundo para não dizer tudo que eu realmente quero.

Quando ele chega, à noite, eu estou aguardando-o. Pacientemente, exponho meu ponto de vista, elencando motivos pelas quais eu não posso simplesmente ‘afastar’ uma pessoa de um local que não é meu e onde ele estuda.

- Ele estuda lá, Edward. Nós estamos na mesma sala, e eu sei que você não gosta disso, mas eu seria a primeira pessoa a afastá-lo se sentisse que ele quer algo a mais comigo. Mas não: ele é apenas gentil e educado e eu quero fazer amizades aqui. Invariavelmente isso vai acontecer, então, não precisa ficar preocupado.

- Por que ele está sempre com você? – ele pergunta. Está jogado no sofá, a camiseta com três botões abertos, os cabelos arrepiados, me analisando enquanto vira o copo de conhaque.

- Porque você me liga e eu ainda estou saindo do estúdio e o Brian tem a tendência a falar alto. – eu puxo seu pescoço para mim, alcançando sua boca. Mordo seu lábio até eles se soltarem dos meus dentes e beijo o local para amenizar o tom avermelhado. – Huuuuum, que gosto delicioso.

- Não tente me distrair, mulher. – ele diz, mas retribui o meu beijo.

 - Amo o gosto do conhaque. – sussurro em sua boca.

- Eu não sabia disso.

- Eu só gosto quando o gosto está em você.

- Você deveria sair daquele apartamento e ficar aqui comigo, para sempre.

- Definitivamente, não. . – e me sento sobre seus quadris, arranco a camisa de seu peito e o tenho nas mãos.

***

Algumas vezes, porém, ambos ficamos chateados e ele percebeu que não adiantava tentar apenas ceder para que eu pudesse ficar tranquila, pois era algo que nem sempre funcionava. Então, agora, ele me enfrentava. Eu gosto disso? 

Não sei o que pensar ainda.

Mas da mesma maneira que eu não quero que ele tente me mudar, eu prefiro que ele seja o Edward durão, que enfrenta o que for, responde e não se submete. Isso quer dizer que era difícil alguém chegar a um acordo e que eu deveria ter bons argumentos a respeito do assunto discutido em questão.

Isso era levado para qualquer âmbito, de temas do nosso dia-a-dia a debates sobre nosso relacionamento.

Algumas das vezes eu realmente me magoei e apenas pedi que ele me desse um pouco de espaço, o que ele aprendeu. Eu sempre me refugiei em mim mesma para tentar analisar a situação por fora, ver no que errei ou no que aprendi e quais lições eu poderia tirar daquela nova discussão. Eu sabia que era algo que o deixar enlouquecido, mas eu simplesmente não sabia o que fazer.

Fomos nos ajustando um com o outro, cedendo e compartilhando.

***

- Mi estrella, o evento de apoio às mulheres e crianças que sofreram abuso foi marcado para o dia 23 de julho. – ele diz me abraçando pelas costas, apoiando o queixo no meu ombro e dando logo em seguida uma mordidinha leve.

- Oh, não acredito! Eu tinha uma pequena viagem a trabalho em Atlanta marcada para essa data! – exclamo, tentando reorganizar minha agenda na cabeça e verificar se consigo cumprir os dois eventos no mesmo dia. Provavelmente não.

- Basta cancelar. – ele diz simplesmente, como se não fosse importante ou não fosse o meu trabalho.

- Você sabe que não é tão simples assim, Edward. – franzo o cenho, estranhando sua escolha de palavras. – Pode parecer que eu estou apenas me divertindo sempre, mas eu levo muito a sério tudo que eu faço.

- Tudo bem, peça para eles remarcarem. – e se serve de uma taça de vinho e joga dois cubos de queijo na boca.

- Por que você está agindo como se não fosse importante? Os dois compromissos são para mim, apesar de que, claramente, um deles não é para você. Ajudar a arrecadar fundos para mulheres e crianças que sofreram abuso e não tiveram nada mais que tristeza e brutalidade em seu caminho é muito importante para mim. Tanto quanto conseguir fotografar para um catálogo de joias.

- Eu não falei que não era, Bella. – ele respondeu. – Desculpa se passei a impressão que o seu trabalho é menos importante do que qualquer coisa. É só que você fica criando obstáculos em coisas pequenas que podem ser resolvidas facilmente.

- Tudo bem, Edward. – falei, desligando os botões do forno. – Eu não quero ser um empecilho no evento onde você é tão importante e especial por ter ajudado boa parte dessas famílias, principalmente quando o que eu tenho que fazer é simplesmente ser fotografada, não é mesmo? Pode deixar que eu cancelarei o meu compromisso, não apenas porque é um trabalho extremamente gentil, mas também porque eu tinha me comprometido a comparecer a algo que é tão importante para você. – e lhe dou as costas.

Eu o ouço suspirar fundo e largar a taça sobre o balcão e vir atrás de mim.

- Bella, não é nada disso... – ele diz me seguindo até o quarto. Eu queria estar sozinha. 

Eu queria tanto chorar, por diversos motivos. Eu me viro e peço para que ele pare com o discurso, de modo gentil, fingindo uma tranquilidade que não é a que está dentro de mim.

- Edward. – e dou o meu melhor sorriso, olhando no fundo dos seus olhos. – Está tudo bem. Não é nada de mais. Eu falo com a equipe de produção e tentarei remarcar para outra data. Se não for possível, paciência, não é mesmo? Temos que dar oportunidades para pequenas coisas em nossa vida e participar desse evento é algo no qual eu quero priorizar. Não precisa se preocupar.

Dou-lhe um pequeno beijo na bochecha, o beijo de eu quero ficar sozinha por um instante, por favor. Pego meu computador, meu caderno e um lápis e atravesso a sala, indo em direção à varanda, onde eu o abro e começo a verificar meus e-mails e redigir um e-mail para a equipe.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas tem várias abas abertas no navegador, meu coração está em conflito e estou tão chateada a ponto de chorar. Mas guardo tudo isso para quando estiver no meu apartamento e puder desabafar com Alice. Mandei-lhe uma mensagem falando que estava bem, mas que eu precisava dela exatamente para isso.

- Você não vem dormir? – me assusto levemente com a pergunta. Edward está encostado no batente da porta da varanda, me olhando atentamente, apenas de cueca.

Eu respiro fundo, como se estivesse cansada, antes de responder: - Estou indo agora mesmo.

Ele me espera, agarra minha mão que não está ocupada com os meus pertences, beija-a e me arrasta para a cama. Eu me desvencilho rapidamente para vestir uma roupa mais confortável e me enfio embaixo das cobertas ao seu lado. Ele me puxa para si, seu peito firme pressionado contra as minhas costas, seus braços enrolados ao redor do meu corpo.

- Me desculpa por fazer você escolher. – ele sussurra no meu ouvido.

- Tudo bem. – sussurrei em resposta. E deixei uma lágrima cair pelo meu rosto. Uma única apenas, pois não queria que ele soubesse o quanto havia me afetado suas palavras.

Fiquei quieta durante toda a noite, apesar de não conseguir dormir. Às 3h47 já não conseguia mais e saí do quarto com meu travesseiro em mãos, e delicadamente para não acordar Edward, que resmungou um pouco quando perdeu o contato com o meu corpo.
No lugar de deitar no sofá, eu apenas joguei o travesseiro sob o tapete, ajustei o aquecedor para não ficar com frio e fiquei ali, pensando em tudo que tinha acontecido. Com o dia quase amanhecendo, eu me enrosquei e dormi.

Acordei com Edward me levando de volta para a cama, comigo aconchegada em seu corpo, respirando em seu pescoço.

- O que você estava fazendo deitada no chão da sala? – ele resmunga. 

- Eu perdi o sono durante a noite e não queria te incomodar. – digo com os olhos fechados, quando sou depositada com cuidado na cama. 

- Durma mais algumas horas. Quando eu sair para o trabalho, te deixarei no seu apartamento. – ele me dá um singelo beijo na testa e eu me reviro na cama, apreciando o quão confortável estou e aproveitando as poucas horas de sono.

Acordo sozinha e giro meu corpo, encarando o teto. O quarto está silencioso e eu me atento para ouvir Edward em algum canto, mas não ouço nada. 

Me espreguiço, vou até o banheiro e escovo os dentes, junto meu cabelo em um nó no topo da cabeça e saio. Passo pelo estúdio, pelo banheiro social e os demais quartos e nada. Na sala ou na cozinha nem sinal, então, está no escritório. Querendo desejar bom dia, sigo na direção. A porta está entreaberta, apenas uma brecha mínima e eu o vejo de costas para mim, sentado na poltrona.

- ... mas eu já consegui fazer com que a data não concilie com nenhum outro evento da Bella, não posso apenas fazer com que ela tenha que cancelar outro trabalho, já estávamos combinado nesta data e manteremos. São duas semanas mais tarde do que costumamos fazer, não dá para ficar mudando tanto assim, até porque as pessoas já confirmaram.

Ele gira a cadeira e me vê parada a porta, pálida, um pouco trêmula e sem acreditar no que acabei de ouvir. Edward apenas aperta um botão e desliga o celular vindo em minha direção.

- Eu não acredito que você fez isso! – e me afasto vários passos até encostar na parede do outro lado do corredor. - Como... Por quê? Por que, Edward?

- Eu posso te explicar...

- Pelo amor de tudo que é mais sagrado: nunca comece a explicar algo dizendo essa frase! Isso só te entrega ainda mais, denuncia o seu erro, não tem nada pior do que ouvir depois de uma besteira grande como algo desse tipo! – e saio caminhando rápido em direção a sala e depois em direção ao quarto e retornando com a minha bolsa, enquanto me enfio em uma calça jeans pelo caminho. Eu o olho. – O que você fez?

- Reajustei a data do evento para que você pudesse participar. – ele diz, seus olhos brilhando, atrevido.

- Mas eu não posso participar. 

- Eu sei, mas você anda muito ocupada e dentre tudo que você tem para fazer, esse seria o ideal para você não participar.

- Como... como ousa, Edward? – falei, me jogando para cima dele e enfiando um dedo no seu peito. – Quem você pensa que é para dizer o que ou não prioridade para mim, para o meu trabalho?

 - Eu sou o seu futuro marido, que não a vê nos finais de semanas mais, pois ou você está viajando, ou enfiada dançando, ou gravando ou fazendo qualquer uma dessas suas coisas!

- Você-não-é-meu-futuro-marido! – enfatizo cada palavra. – Eu sou sua namorada, Edward! E você não tem nenhum, eu repito aqui, NENHUM direito de interferir na minha vida, no meu trabalho ou em qualquer coisa que seja decisão minha! Você tem noção do quanto eu esperei por aquele convite? Dos contatos que eu teria trabalhando com uma equipe tão grande, para uma marca grande? Do dinheiro que eu teria? Da felicidade que me traria saber que eu estou fazendo algo grande por conta própria?

Ele apenas me segue com os olhos, caminhando de um lado para o outro, procurando por algo que nem mesma eu sei o que é, enquanto o que quero é chorar, explodir, gritar e esbofetear cada parte dele, cada pedacinho, para ele sentir fisicamente o que eu estou sentindo emocionalmente.

- Eu sinto muito se não consigo ser uma em um milhão, estou apenas tentando me organizar da melhor maneira possível. Nunca pensei que você se sentisse sozinho, pois todo e qualquer momento que eu tenho, quero estar e compartilhar com você. – e uma lágrima escorre pelo meu rosto. A única, que eu rapidamente limpo com as costas da mão.

Ele apenas enfia as mãos dentro das calças do seu terno e continua a me olhar, desafiador, como se nada antinatural tivesse ocorrido e eu fosse a louca, causando confusão a toa.
- Você não está arrependido? – eu soluço.

- De maneira nenhuma. – ele responde autoritário.

- Eu estou decepcionada. – eu falo baixo. – Constantemente você me mostra ainda mais motivos para não casar com você, Edward! Você é controlador, intransigente e pouco se importa para o que eu penso quando decidi que é o melhor para você! Se isso acontece agora, mesmo comigo sendo firme com você, o que acontecerá depois?

Ele passa as mãos pelos cabelos, bagunçando-os e me olha atentamente.

- Você usa o casamento como desculpa para qualquer ação minha que não lhe agrada. Já está condicionado em sua mente não me aceitar como seu marido, então, pare de ficar usando-o como desculpa todas as vezes que temos uma discussão como forma de tentar me convencer a fazer o que quer. Isso não vai funcionar.

Pensa rápido. Estou louca de raiva.

- Não quer que eu use casamento como desculpa? Então passe a agir como um adulto que quer construir uma família com outra pessoa e não como um adolescente mal educado e cruel que quer impor suas vontades. Você estragou tudo.

- Não tem nada estragado aqui, Bella. O evento está marcado, você irá participar. Fim de papo. O que você queria que eu fizesse? Aparecesse lá sozinho, fingindo que eu estava tudo bem em não estar acompanhado quando o que eu mais queria era que você estivesse ao meu lado?

- Eu iria resolver tudo! – eu explodi, gritei e chorei. – Era uma decisão minha, unicamente minha, Edward! Se eu tivesse que ficar voando um dia inteiro, terminar as gravações e vir correndo, não ir para o meu compromisso, me desculpar por não participar do seu evento, ERA A MINHA DECISÃO, CARAMBA! Não a sua, nunca a sua decisão!

- Você fala como se fosse muito simples sair de Atlanta, chegar até aqui, se arrumar, fazer todas as coisas que você precisa fazer e ainda ir até o evento. Você não estaria cansada, com sono, enjoada talvez depois do dia exaustivo?

- Eu estaria, Edward! Ou eu poderia não estar porque o meu pensamento seria que mesmo depois do dia cansativo, eu estaria acompanhando a pessoa que eu amo e admiro em um dos projetos mais lindos que ele faz questão de participar! Eu poderia perder o voo, chegar atrasada, perder o seu discurso, mas eu estaria lá, por você! E não porque você mexeu na minha vida, no meu trabalho, foi invasivo e roubou a minha decisão de escolha! Mas porque eu queria estar ao seu lado!

- Eu fiz tudo pensando em você! – e o olho com um olho matador e acusador, não acreditando por um sequer em suas palavras. – É verdade! 

 - Você não fez nada disso pensando em mim, Edward. E é nesses momentos que eu me pergunto por que estou com você, por que eu estou fazendo essa loucura que é estar em um relacionamento com você, seu idiota!

E foi o fim da conversa.

Eu o ignorei totalmente pelos próximos dias, do tipo de não atender ligações, responder mensagens ou vê-lo. Ele, claro, apelou para Alice e Rose, que o mantiveram informado apenas do que era necessário e com uma educação levemente fria. Eu, por outro lado, me sentia tão triste e com raiva que chorei por uma noite inteira e só fui dormir, com os olhos inchados, quando o dia estava amanhecendo. Eu me sentia vazia, triste, traída, enfurecida e chateada. A alegria dos últimos meses parece que esvaíram de dentro de mim, roubando toda a minha energia e fazendo com que eu desejasse ficar dentro de casa pelos próximos dez meses. Mas eu tinha os meus compromissos – aqueles que ele não tinha conseguido cancelar - e, bravamente, me pus a criar vontade para realizá-los.

Edward se manteve insistente como sempre, mas eu nunca o tinha ignorado dessa maneira e a minha raiva era maior do que a minha vontade de perdoá-lo porque simplesmente não me sentia muito perdoadora no momento. Ele tentou me seguir quando eu saía das aulas de dança, mas eu o ignorei de modo que quando eu o vi esperando ao lado do carro por mim, passei por ele como se não o conhecesse. No primeiro dia que eu voltei ao estúdio, ele me seguiu pela calçada, tentando chamar minha atenção e segurar minha mão. Eu afastei, mas ele apenas me seguiu pelo metrô e ficou pra trás quando eu passei meu bilhete eletrônico e ele teve que apressar quem quer que estivesse na fila para comprar o seu próprio e me seguir correndo. O trem chegou e não tinha lugares para sentar, então, me segurei em uma barra perto da porta e ele se posicionou na minha frente. Ele me encarava, levantando meu rosto delicadamente pelo queixo quando eu abaixava o rosto, tentando não olhá-lo. Por fim eu desisti e deixei que ele visse nos meus olhos o que eu queria transmitir: primeiro eu deixei meu olhar vazio, encarando-o como ele queria, sem expressão. Depois disso, meus olhos se encheram de lágrimas e eu deixei que elas ficassem ali, sem escorrer pelo meu rosto, apenas para deixá-lo saber o quanto havia me magoado, e por fim, baixei meu rosto novamente e apenas afastei sua mão quando ele quis me tocar. Ele me acompanhou o trajeto inteiro até em casa, em silêncio, assim como eu.

Ele fez isso por mais três dias durante a semana e depois pararam. Eu não soube dizer se percebeu que eu estava querendo meu espaço ou se estava muito ocupado para continuar a me seguir nas suas tentativas infrutíferas. 

O dia do evento chegou e eu já tinha debatido internamente se eu iria mesmo ou não, depois de tudo. Eu acordei me sentindo enjoada, sem motivo aparente, com dor de estômago e a cabeça pesada. Talvez pela pressão dos últimos dias, talvez pela minha tristeza, talvez por saber que eu deveria estar em Atlanta... já tinham se passado duas semanas e eu não dava margens para uma conversa com Edward, que estava insistindo: ele me mandou um buquê de rosas vermelhas no estúdio e quando eu cheguei em casa, cada centímetro estava coberto pelas mesmas. Alice, que tinha ido comigo até o píer caminhar com Manchinha exclamou um ‘ouuuuw!’ quando entramos. Avaliei sua reação para saber se ela tinha ajudado de alguma maneira, mas ela vendo minha expressão, negou veementemente. 

Eu não tinha vontade nenhuma de ir por tudo que tinha acontecido, mas o meu senso de compromisso falou mais alto. Então, eu tomei um banho, hidratei a pele e sentei em frente a minha penteadeira para arrumar o meu cabelo e me maquiar, antes de escolher um vestido. 

Escovei e depois enrolei mechas do meu cabelo em grampos e passei um spray fixador para quando soltar, eles manterem as ondulações. Meu rosto eu destaquei meus olhos, colocando cílios postiços e deixando-os meus marcados. Na boca, um batom vermelho. Quando estava pronta, fui até o armário verificar o que eu poderia usar que seria aceitável e bem visto para um evento de caridade. Separei aqueles que seriam boas opções. Depois de analisá-los, decidi por um azul turquesa. 

Ele tinha um decote aberto até o umbigo, mas não ficava aberto totalmente, pois tinha um fino e resistente tecido que o ligava entre os seios. A saia era justa ao quadril e abria mais rodado na altura dos joelhos, deixando uma leve camada de tecido escorrendo atrás de mim. Nos ombros e o colo era bem trabalho com pedras. Na cintura havia um pequeno laço que dava um toque feminino. A parte de cima dele era todo com pedras semipreciosas, a saia em renda e a parte de trás mostravam todas as minhas costas, e tinha em linha reta uma fileira de bordados e pedras. Calço um par de sandálias com saltos bem altos e vou soltar meu cabelo.

O efeito é maravilhoso. Eu me sinto bonita, mas nem isso faz com um sorriso verdadeiro surja no meu rosto para completar com o visual magnífico. 

Eu confiro meu telefone, que tem 20 chamadas perdidas de Edward. Eu não havia confirmado minha presença, não havia tocado mais no assunto e ele com certeza estava preocupado que eu não fosse aparecer e tentaria me convencer. Meu telefone começa a tocar bem no momento e é ele. 

- Bella. – ele diz com a voz aliviada. – Estou desde cedo ligando, você não atende, Alice me ignora, pensei que você tivesse fugido do país. 

Silêncio da minha parte. Eu encaro o meu reflexo no espelho.

- Você... er... você irá? – ele pergunta, em dúvida.

- Me passa o endereço e o horário que você planeja chegar. Chegarei em ponto.

- Pelo amor de Deus, eu estou na porta do seu apartamento tem uma hora te esperando. Você irá comigo. 

Silêncio.

- Você poderia abrir a porta? – ele pergunta, enquanto eu respiro fundo, atravesso a sala com meus saltos clicando no chão para abrir a porta para ele, desligando o telefone no caminho.

Ele está deslumbrante em um conjunto de terno vermelho escuro, seu perfume me atinge assim que eu o vejo, seus cabelos belamente penteados para traz e ele passou algo para que eles ficassem no lugar e me fez questionar internamente quem o teria ajudado.

- Eu vou apenas buscar uma bolsa. – digo, virando-me e deixando-o ali.

Volto para o meu quarto e procuro por uma bolsa de mão pequena, apenas para guardar meus documentos, meu celular e alguns dólares. Arrumo tudo ali dentro, passo os dedos pelo meu cabelo para eles ficarem ainda mais volumosos e retoco o batom.

Volto para encontrá-lo fazendo carinho na barriguinha estufada de comida da Manchinha. Seus olhinhos estão fechados, mas pelas pálpebras entreabertas dá para ver suas pupilas giradas para dentro da cabeça, em extremo prazer com o carinho.

Vendida.

- Estou pronta. 

Caminho até a porta, abro-a para que ele passe e continuo com o tratamento de gelo. Educadamente, oferece o braço para que eu enlace, mas eu apenas chamo o elevador. Nas escadarias da entrada do prédio ele novamente me oferece a mão e eu aceito, finalmente. Ele abre a porta do carro reluzente para mim e dá a volta.

Eu estou tensa ao seu lado, com a bolsa no colo e as mãos cruzadas por cima, ereta.

- Você está linda. Obrigada por me acompanhar. Eu comprei algo para você. – e me oferece uma caixa retangular. 

- Agradeço, mas eu quero apenas que esta noite acabe logo. Podemos ir? – digo, ainda olhando fixamente para frente.

- Você poderia pelo menos abrir? – ele insiste, empurrando o estojo em minhas mãos. 

Eu suspiro fundo e pego a caixa, abrindo- delicadamente: ali dentro há um colar com uma única peça vermelha e oval. A corrente é fina e delicada e eu tenho certeza que quando presa ao pescoço, dará a sensação que a pedra está colada ao colo.

- Muito bonito, mas eu não a quero. – digo fechando o estojo e devolvendo.

Ele não responde, apenas segura firmemente o volante, antes de jogar a caixa para o banco traseiro.

Nós seguimos até o local do evento, num silêncio desconfortável no qual eu não faço questão de quebrar. Talvez seja porque o evento em si foi o que trouxe toda essa situação, mas não me sinto caridosa. Pelo contrário, acho que talvez eu vá passar mal.

Ele para e entrega o carro para o manobrista e dá a volta para me receber antes que eu desça do carro. Respiro fundo e me lembro que me propus a estar ali, então, o mínimo que posso fazer é não deixar que as pessoas percebam que tem algo estranho. Encaro Edward nos olhos pela primeira vez e deixo ele puxar meu braço para enlaçar no seu e o acompanho de boa vontade.

Existe uma porta alta com um arco e um tapete vermelho, por onde os convidados passam. Ali, todo mundo para e é fotografado, e eu me posiciono para receber as chuvas de flashs. Ele posiciona o braço sob minha cintura, me puxando para perto de si e eu deixo meu corpo ir. Sorrio, não um sorriso radiante que eu daria numa noite comum para este evento, mas meu sorriso que eu aprendi a dar que aparenta felicidade e fica bem nas fotos. Isso é suficiente. Edward se aproxima do meu rosto e pousa um beijo em meus cabelos enquanto os flashs ainda pipocam a nossa volta e logo depois sussurra no meu ouvido:

- Eu te amo.

Eu não respondo, mas continuo a sorrir, mudando nossas posições, tirando fotos individuais e em conjunto. Tenho certeza que formamos um belo par.

O evento começa e sentamos em uma mesa junto com mais oito pessoas nas quais eu fui apresentada mas que, sinceramente, não me recordo o nome de nenhuma ou seus cargos. Edward tenta me enturmar na conversa, mas não faço muita questão que seus esforços sejam válidos, dando apenas alguns sorrisos e respondendo quando necessário. Alguns estavam curiosos para saber sobre Cuba e como eu tinha chegado até ali, mas eu não estava muito a fim de papo. Edward arrastou sua cadeira até muito próximo a mim e segurou minhas mãos que estavam em meu colo, passando o outro braço ao redor dos meus ombros. Minha cabeça estava doendo levemente e eu começava a me sentir enjoada.

- Você está bem? – ele perguntou quando me remexi desconfortavelmente na cadeira. – Me parece um pouco pálida ou errou a maquiagem?

- Eu não me sinto bem desde cedo. – respondo seca, ignorando a última parte. – Eu preciso de um pouco de água. – digo, tentando me afastar e em busca de algum garçom. Talvez ar fresco me ajudasse. Mas Edward rapidamente localizou um que me ofereceu uma taça.

Uma hora e meia depois os aperitivos foram servidos e eu me aventurei em comer alguns poucos enquanto Edward me acompanhava de perto. Ele estava bebendo algum tipo de uísque que tinha um cheiro forte, mas que combinado com o seu próprio cheiro me deixava inebriada. Eu me encostei involuntariamente em seu ombro, o rosto virado para o seu pescoço, fechei os olhos e tentei controlar a ânsia que estava me atacando, respirando fundo. Ele aproveitou para acariciar minhas costas, subindo até o meu pescoço e massageando minha nuca por baixo do cabelo. Eu me afastei quando senti a tontura passar e agradeci.

O jantar de pequenas porções foi servido aos poucos, com entrada e todas aquelas chatices de eventos desse porte. Eu não me sentia confortável em comer algo, mas ainda assim deixei que me servissem a salada. Entre um prato e outro, várias pessoas eram convidadas para ir até o palco e falarem a respeito do projeto e da assistência que prestavam a essas famílias. Eu aplaudi educadamente cada um deles, inclusive Edward, que discursou e agradeceu toda a equipe do escritório que ajudavam a tornar a vida dessas mulheres e crianças mais felizes.

E eu me senti orgulhosa dele, mesmo com seus defeitos, seu coração era gigante e ponto de ajudar pessoas que precisam do seu conhecimento, da oportunidade que ele oferecia para essas mulheres de tentarem conquistar algo bom para si mesma e suas famílias. Eu o aplaudi mais entusiasmada do que os demais.

Quando ele voltou para a mesa, depois de cumprimentar todo mundo que era necessário, já estavam servindo um novo minúsculo prato de comida. Eu levantei e o abracei, verdadeiramente, pois por mais magoada que eu me sentisse, não conseguiria esconder meu orgulho.

No decorrer da noite as pessoas foram se espalhando, atravessando as portas que levavam para outros cômodos, participando de pequenas competições e leilões. Uma banda tocava músicas lentas e muitos casais já se aventuravam por ali.

- Dança comigo? – ele pediu.

- Obrigada, mas vou declinar o convite.

- Uma professora de dança, estudante, dançarina de corpo e alma recusando um convite? Me sinto ofendido.

Ai, Edward. Não força a barra, foi o meu pensamento. Mas acho que as pessoas na mesa estavam pelo menos desconfiadas que algo não estava bem e eu não queria ser motivos de falatório, então, aceitei e fomos até o salão. Acompanhamos o ritmo e eu fiquei observando as outras pessoas se balançarem para lá e para cá. Edward me manteve bem junto ao seu corpo, seu braço apertando a minha cintura, sua outra mão acariciando meu polegar em movimentos lentos. O barulho, junto com a bebida e o pouco que eu tinha comido e o meu mal estar foram voltando e eu me senti tonta. Passei os braços ao redor do pescoço do Edward, e ele me abraçou quando sentiu meu corpo amolecer.

- Eu não me sinto bem. – falei baixinho. – Talvez... eu queira vomitar, eu não sei bem.

- Você quer ir embora? 

- Se não for atrapalhar nem parecer que somos mal educados, sim. Eu gostaria de me deitar. – falei baixinho.

Voltamos à mesa e nos despedimos das pessoas. Edward falou que eu não estava me sentindo bem e quando estávamos saindo, eu ouvi alguém sussurrar:

- Com certeza deve estar grávida. – o que fez Edward ficar com os olhos esbugalhados e parar por um segundo, olhar meu rosto firmemente antes de pousá-los em minha barriga plana, como se de repente fosse aparecer uma criança de 5 meses ali.

- Eu não estou grávida, Edward. – respondi revirando os olhos para a sua ideia comprada absurda. Não sei o que me deixou mais preocupada: a ansiedade em seus olhos com a ideia ou o leve desespero que se juntou ao primeiro.

Nós esperamos o carro por apenas 1 minuto e ele me posicionou ali dentro com cuidado.

- Devemos ir ao hospital, você está pálida e suando frio.

- Não. – eu digo afastando o banco para trás e inclinando-o. – Me leve para casa, por favor. Deve ser alguma virose. – e me virei de lado, com o rosto virado para porta, pois foi a maneira mais confortável que eu me senti. Puxei o vestido até os joelhos e os dobrei atrás do corpo, me encolhendo. Edward gentilmente desenlaçou as sandálias dos meus pés e eu fechei os olhos quando o carro começou a se movimentar.

***

Eu estava me sentindo tonta e fraca, com gosto de bile na boca e a sensação de que poderia vomitar a qualquer momento. Eu busquei me situar dentro do meu próprio quarto, fazer minha mente me recordar onde estava cada objeto, mas eu reconheci outro espaço: o quarto do Edward.

Eu estava com alguma roupa diferente do vestido, mas sentia frio. Eu gemi e logo uma luz acendeu na lateral.

- Como você está? – ele perguntou, pousando a mão na minha testa e afastando o cabelo.

- Eu não estou em casa. – resmunguei.

- Eu achei melhor trazê-la para cá. Como se sente? – ele disse atencioso.

- Eu quero vomitar, meu corpo está dolorido e minha cabeça dói. – tento levantar, mas uma tontura passa pelo meu corpo e eu me jogo encolhida na cama novamente, puxando os lençóis.

- Eu vou chamar o médico. – ele diz se afastando para alcançar o telefone.

Eu quero dizer que não é necessário, mas acabo dormindo novamente.

***

- Mi estrella, a médica está aqui. – ele sussurra em espanhol para mim. Abro os olhos e olhando para a porta vejo uma jovem médica parada ali, aguardando o meu consentimento para avançar. 

Ela me cumprimenta e faz todo o processo médico básico necessário, enquanto Edward fica rodando-nos com seus shorts no joelho e camiseta amassada.

- Você esteve em alguma área de risco?

- Não.

- Você toma anticoncepcional?

- Sim. – e olho de relance para Edward para avaliar sua reação.

- Você se lembra de ter comido algo estragado ou diferente?

- Não.

- Você sofreu algum acidente ou trauma nos últimos dias?

 - Não.

- Você se lembra de estar sob pressão, chateada, irritada, magoada, triste nos últimos dias?

- Sim. – sussurro.

- Sim? – a doutora repete como se tivesse encontrado a cura para o que quer que eu esteja sentindo.

- Sim. – repito. 

Meus olhos correm para Edward que está encostado na parede do outro lado do quarto, tão pálido quanto eu.

Depois de várias outras perguntas seu diagnóstico é que provavelmente eu estava doente emocionalmente e que isso era muito comum quando as pessoas passam por situações de grande estresse ou tristeza. Aparentemente não havia muito o que fazer, apenas deixar com que eu melhorasse sozinha, mas ela pediu para Edward me acompanhar de perto para qualquer aspecto de piora no meu caso, pois eu poderia estar entrando em depressão.

Exagero.

Se o que ela falou foi verdade, hoje foi apenas o ápice do que veio acontecendo durante algumas semanas. Mesmo assim, receitou medicamentos para o meu enjoo e possíveis febres. Recomendou que eu tomasse um banho e comesse comidas leves, me hidratando sempre.

Eu agradeci sua disponibilidade em me receber e cai de volta nos travesseiros. Edward me acordou para tomar um dos medicamentos e falando para eu tomar um banho, o que eu recusei. Eu quero a cama, apenas.

Quando eu acordo novamente já é íncio da manhã e Edward está deitado ao meu lado. Tento verificar na receita qual o próximo medicamento, mas ele acorda no menor movimento, consegue me levar até o banheiro para um banho e eu volto a me deitar depois de tomar outro remédio.

Eu acordo e o sol está a pino e olhando para o relógio, vejo que já passou das 14h. Minha cabeça ainda está zumbindo, mas me sinto bem melhor e faminta. Testo minha coordenação, sentando-me a beirada da cama e sim, não parece que eu vá cair.

- Ei. – ele chama quando atravesso a sala devagar, em direção a cozinha. Estava sentado na varanda, com o computador ligado.

- Olá. – digo com a voz levemente rouca do pós-sono.

- Como você se sente hoje? – ele diz se aproximando de mim e alisando meu cabelo para detrás da minha orelha.

Eu tento fazer uma avaliação de mim mesma: eu já me senti pior nos últimos dias. Eu me sentia bem.

- Me sinto melhor. Eu só quero um pouco de água ou um suco... – digo apontando para a cozinha. – e acho que já estou pronta para ir pra casa.

- Eu vou arrumar tudo pra você. – ele diz me puxando pela mão e me posicionando em um banco alto junto ao balcão.

Rapidamente me serve de suco de laranja natural e deixa a jarra próxima a mim. Me sinto faminta como se não comesse há 6 meses. Ele traz uma quantidade de frutas cortadas para que eu prove e biscoitos de cereal. Senta-se na minha frente e me observa. Eu o ignoro, comendo com os olhos voltados para o colo.

- Mi estrella.

Silêncio.

- Eu quero te pedir desculpas.

Silêncio.

- Eu ajo por impulso muitas vezes e sei disso. Prometi para mim mesmo que não iria te decepcionar ou deixá-la triste ou magoada, mas isso acontece uma vez seguida da outra e quando eu olho para você, vejo como está ou como me olha, sinto como se o mundo fosse desabar.

Torço os dedos no colo.

- Admito que eu não agi de boa fé nessa situação apenas porque eu a queria comigo mais do que consegui pensar em como isso te magoaria. Se eu pudesse pelo menos ser menos idiota, admitiria para mim mesmo que até você distante de um evento na qual eu gostaria de tê-la ao meu lado, estaria torcendo por mim. Porque é isso que você faz.

Uma lágrima escorre pelo meu rosto, mas passo a mão pelo rosto e levanto a cabeça.

- Por esse e vários outros motivos eu te peço desculpas: por agir como um babaca que vez ou outra você me acusa de ser, por ter te feito chorar quando deveria estar sorrindo, por perturbá-la com as minhas ações, por ter feito você ficar doente. Eu me sinto vazio.

Ele finalmente disse. Depois de tudo, ele falou o pedido de desculpas que eu queria e precisava ouvir, mas parece tão distante. Mas não é o momento para ser idiota vingativa.

- Tudo bem, Edward. – falei pousando a mão no seu joelho. – Obrigada por dizer tudo isso, acho que é parte do que eu precisava ouvir para perdoá-lo e saiba que isso já foi feito, agora. Mas não isenta o meu coração de ainda se sentir magoado. É nesses momentos que você toma atitudes inesperadas e que me surpreendem que eu me lembro dos motivos que eu amo você. Acabou de lembrar e agradeço por isso, pois estou tão cansada de me lembrar que preciso estar chateada e com raiva. Obrigada por isso. Agora eu gostaria de ir para casa. Eu irei me curar para depois esquecer como foram as últimas semanas. Sei que parece demais, mas acho necessário para a minha própria recuperação.


JULHO

– Eu te amo tanto.

– Eu sei. – digo suspirando. Quantas vezes ele vai repetir isso?

– Você não me ama? – ele insiste.

– Claro que sim!

– Tem algumas semanas que eu não a ouço dizer isso para mim.

– Deve ser porque eu ainda estou chateada? – retruco. – Eu não sei falar que amo você quando eu estou tão magoada ainda, não sairia sincero, apesar de eu amá-lo. Você entende isso? E larga de ser exagerado: não existe nada de semanas.

– Bella, por favor. – ele geme em frustração. – Eu sei que o que eu fiz foi errado...

– Não, Edward. Não foi apenas errado: foi o cúmulo de errado, errado ao extremo, foi invasivo!

– Tudo bem! – ele exclama. – Eu sei de tudo isso, mas vamos lá! Você não me deixa tocá-la ou ficar perto de você por mais de 10 minutos. Eu sinto a sua falta, mi estrella. Você mal dorme comigo, sai para almoçar e parece distante, suas respostas estão sendo superficiais e monossilábicas e se não me esforço, mal nos falamos por uma hora!

- Tudo bem, Edward. Sei que não estou facilitando nada para você, mas eu estou tentando me manter perto ainda quando o que eu quero fazer é ficar distante. Sério, você tem muita sorte que prometi que tentaríamos conversar sobre nossos problemas ou estaria verdadeiramente encrencado. Eu estou magoada, estou chateada, eu perdi minha oportunidade. Mas olhe pelo lado bom, eu ainda apareci ao seu lado na festa. Você deveria estar me agradecendo, francamente.

- Você estava com um sorriso falso e olhar distante no evento, Bella. – ele resmunga, como se eu não tivesse motivos.

- Eu me pergunto se teria motivos... – estou deitada na minha cama, enrolando uma mecha do cabelo no dedo, enquanto o telefone está apoiado entre meu rosto e o ombro. Eu tenho uma lista de e-mails para responder.

- Só me perdoa mais rápido. – sua voz está baixa. – Eu poderia ir até o seu apartamento, convencê-la.

- Nem se atreva. Eu não estou afim.

- Eu sinto como se estivesse sendo castigado. Você está fazendo isso? 

- O que acha? – digo, com uma risada debochada. – Aproveite sua mão enquanto pensa em mim, pois é o que você terá durante alguns dias. Adiós.

***

Tinha exatamente duas semanas que eu estava dando um gelo um Edward, mantendo-o afastado e falando o mínimo. Nos primeiros dias foi pior, pois eu só respondia suas mensagens falando que estava bem e nada de chamadas.

Eu deixei bem claro: eu não quero te ver. 

Isso foi sério e ele entendeu o recado.

Mas apesar de tudo, ele tinha aprendido a lição: o meu silêncio diante da sua pessoa, o ignorar enquanto ele tentava manter uma conversa saudável, sua maneira de tentar me incluir quando o que eu mais queria era que me deixasse em paz, serviu de lição. 

Eu apenas me mantive calada.

Mas já estava na hora de acabar com isso, aos poucos pelo menos. Eu deixaria ele me mimar e me pedir desculpas decentemente, afinal de contas, era o mínimo que poderia fazer. Pego meu celular e rolo através das centenas de mensagens que ele vem me mandando durante os últimos dias. Pego a última que ele me mandou durante a manhã

Edward: Hey, mi estrella. Passando só pra dizer que eu te amo mais do que você pode imaginar. Desejo para você um dia tranquilo, estarei trabalhando no escritório hoje, caso queria falar comigo.

Eu: Olá, homem das cavernas! A Manchinha está te mandando bom dia. 

Coloco a imagem da minha filhotinha sendo esmagada em um abraço, seu rostinho colado no meu com a língua caindo para fora pelo canto da boca, um sorriso meu e um cabelo bagunçado compondo a foto e teclo ENVIAR.

Edward: Oh, como é bom receber uma foto da Verme com uma língua para fora. Maravilhoso mesmo é receber uma foto sua com o meu sorriso quase preferido. 

Eu: Bom saber que você cataloga os meus sorrisos.

Edward: Eu quero voltar a catalogar o seu corpo, mas você não colabora.

Dou uma risadinha com a sua mensagem. Vamos lá.

Eu: Que bom que você tocou no assunto, quem sabe não pode me ajudar. Você acha que essa calcinha está em um tamanho perfeito para ser analisada e catalogada? Qual seria a seção que você a inseriria?

Encaminho em anexo uma foto do meu traseiro, feita de maneira bem sensual, onde eu estou enfiada dentro de uma calcinha minúscula e vermelha.

Sua resposta logo aparece uma atrás da outra:

Edward: Caralho.
Edward: Porra.
Edward: Você está falando sério?
Edward: Eu acho que essa calcinha está no tamanho mais do que perfeito para ser inserida na seção quero rasgá-la com os dentes. Se eu conseguir encontrar algum tecido para morder.

Eu: Bem... é que eu e o meu traseiro seremos catalogados de qualquer forma. Eu irei fotografar para uma marca de lingerie e espero que dessa vez você não estrague tudo.

Edward: Certamente que terei que me controlar para não estragar. Você me deixa duro às 10h da manhã, Bella.  Eu quero deixar sua pele da cor dessa maldita calcinha.

Eu: Dessa cor eu não sei se você deixará, mas que tal dessa?

Ousada, tiro uma foto minha puxando uma calcinha rosa clara pelo dente, com uma cara de safada, e mostrando o topo dos meus seios.

Sua resposta chega rápida.

Edward: [ imagem em anexo] 

Eu: Por que eu recebi uma imagem das suas calças estourando?

Edward: Porque é isso que está acontecendo, porra, elas estão estourando!

Eu: Você não gostou da cor?

Edward: Claro que sim, mas prefiro a vermelha, pois terei que me esforçar muito mais para alcançar o tom enquanto te mantenho presa embaixo de mim.

Eu: Se for por esforço, acho que essa aqui seria ideal então... [ imagem em anexo ]

Mando uma foto minha vestida em uma calcinha roxa escura, meu traseiro empinado, mostrando tudo que ele quer, depois de programar o timer para o efeito ser perfeito.

Edward: Eu estou indo te chupar até sua pele inteira estar nesse tom agora mesmo!

Eu: Nem pense nisso! Bom dia, amor! Fico feliz em saber que as fotos foram devidamente aprovadas!

E ignoro suas próximas mensagens.

Na hora do almoço, eu ponho um vestido bem justo ao meu corpo e um par de saltos bem altos. Arrumo meu cabelo para ficar bem enrolado e volumoso, caindo pelas minhas costas até a cintura. Faço uma maquiagem simples, mas ponho um batom que enche meus lábios e parto para o escritório do Edward.

Chego até a Tania.

– Olá, o Edward já saiu para ao almoço? – pergunto delicadamente e com um sorriso cínico no rosto.

- Sim, senhorita Martínez. Mas posso avisá-lo que está aqui. – ela diz, querendo ser prestativa. Idiota.

- Ah, não precisa se preocupar. Eu mesma posso avisá-lo. Poderia me fazer o favor de deixar esta caixa em cima da mesa dele?

Ela sai com a caixa e eu fico mexendo no meu telefone, enquanto a aguardo. Quando ela retorna, eu agradeço e me dirijo ao elevador. Disco seu número.

- Minha pequena possuidora de calcinhas minúsculas. – ele diz com um sorriso na voz.

- Oi. Passei o escritório para te ver, mas você não está. Só queria dar uma espiada nas suas calças rasgadas. Não acredito que você teve coragem de sair por aí assim, Edward! – digo com uma risada, enquanto chamo pelo elevador.

- Onde você está? Estou dentro do elevador agora mesmo, quero te ver! Espere um minuto!

- Oh, ouw! Acho que não, querido! – meu elevador apita, sinalizando que chegou e eu olho para o que está subindo, com Edward dentro, certamente. Que timing! Seguro o elevador que vou entrar e espero o dele. Quando falta um andar, eu me posiciono no meu e mantenho a mão na porta para não fechá-la.

- Bella. – ele rosna. – Você pode esperar um minuto, caramba! 

Eu rio e ouço a porta do seu elevador abrir e ele sair. Retiro a mão para não impedir mais o fechamento, quando ele dá um giro e me vê ali dentro.

Seus olhos faíscam.

- Oh! Nosso timing foi quaaaaaaaaaaaaaaase – eu alongo bastante a palavra. – perfeito.

Ele dá vários passos em direção ao elevador, para impedir o seu fechamento e... consegue.

Oh, merda. 

Não era para isso acontecer.

- Oh, ouw! – ele diz, quando percebe meu rosto e desce os olhos pelo meu corpo apertado dentro do vestido. Eu olho para seu rosto, desafiando-o. Ele entra, aperta o botão da garagem e começamos a descer direto, sem interrupções.

Ele avança para mim e eu recuo, mas, obviamente, que não tenho muito espaço.

- Não quero que me toque. – digo rapidamente.

- Eu pouco me importo com o que você quer agora. – ele responde, agarrando meu rosto com as duas mãos, enterrando seus dedos em meus cabelos, me empurrando enquanto sua língua entra ativamente dentro da minha boca.

Edward se afasta e esmurra os botões do elevador com desespero até que ele para e eu tenho tempo apenas de recuperar meu fôlego antes que me ataque novamente. Eu passo meus braços ao redor do seu tronco, pois sinto que estou derretendo ou escorregando da maneira como ele está me pressionando. Sua língua está na minha boca furiosamente e eu começo a gemer, não baixinho ou de uma maneira educada – tão educada quanto posso ser em uma situação como essa. Ele afasta de mim apenas para morder meu queixo, beijar meu pescoço e ir em direção aos meus seios, abrindo minhas pernas para se posicionar no meio delas.

E se esfrega.

Eu agarro seu traseiro e aperto fortemente. Subo a mão por suas costas enquanto puxo sua cabeça pelos cabelos e o trago de volta para minha boca, para onde eu o quero. Eu tinha deixado que ele comandasse o beijo, mas agora eu também retribuo, beijando-, mordendo-o, chupando-o, gemendo. Ele me aperta em todos os lugares possíveis, me mantendo pressionada na parede e meu corpo está querendo mais, desejando mais e tem roupa demais entre nós.

Eu o afasto.

- Chega! 

Ele dá um passo para trás, mas é como se eu nada tivesse falado. Um rosnado baixo sai de sua garganta e ele me agarra novamente, levantando meu vestido apertado, sua mão apertando a minha pele fortemente.

- Eu quero que a sua pele aqui fique vermelha, da cor da calcinha. – ele diz no meu ouvido, mordendo meu lóbulo, circulando com a língua a região sensível que me faz arrepiar e ficar excitada. – E depois eu partirei para o roxo.

Ele está duro, me desejando e eu quero arrancar a sua roupa e empurra-lo em qualquer lugar apenas para ter o que quero. Eu me esfrego nele, levanto uma perna e enrosco na sua cintura para tê-lo mais próximo e ele começa a se movimentar.

- Levanta mais a porra do vestido, mi estrella. – ele geme no meu ouvido e eu passo a mão pelo seu rosto, acariciando a barba ali, sentindo a diferença de textura nas pontas dos dedos. Suas mãos sobem o vestido, arrastando o tecido pela minha pele. Dois de seus dedos chegam até onde eu estou úmida e excitada e ele geme enquanto flexiona os joelhos para depois empurrar fortemente contra mim.

Eu o empurro de novo.

- Não. – tento recuperar o sentido da vida.

- Por tudo que é mais sagrado. – ele diz me prendendo entre seu corpo e a parede, nervoso e excitado, se esfregando desavergonhadamente em mim. – O que raios você quer, mulher?

- Eu só... – eu tento lembrar o que vim fazer, mas tudo está enevoado. – Eu preciso ir embora.

- Não, você precisa me deixar gozar dentro do seu corpo. – ele diz ondulando os quadris.

- Não, você está me fazendo pular as etapas. Eu preciso ir antes que eu não resista. – eu digo, passando por baixo do seu braço e apertando o botão para destravar o elevador. Minha respiração está descompassada e dois andares depois, eu saio no estacionamento subterrâneo.

- Eu vou te levar para casa. – ele diz colando seu corpo no meu. Sinto sua ereção cutucando em minha bunda, um de seus braços me rodeia e o outro pousa com a mão aberto sobre o meu ventre, pressionando a musculatura ali e descendo, sua boca em meu pescoço lambendo minha veia pulsante.

- Não precisa, você está no trabalho. – eu digo, tentando me afastar, mas tropeçando em meus saltos e escorregando ainda mais em seu corpo.

- Eu irei fazer isso. – ele diz, decidido. Ele destrava o carro a abre a porta para mim, me beijando fortemente antes de me empurrar delicadamente para dentro. Estou tentando me tornar apresentável novamente, quando ele entra. – Eu estou feliz que você tenha vindo. – ele diz ligando o carro e saindo lentamente. – mesmo que o objetivo não tenha sido concluído.

- Para ínicio de tudo: esse não era o objetivo. – digo com um sorriso secreto, enquanto ele pousa a mão em minha coxa e aperta. 

Olho para sua calça e ela está realmente quase estourando. Rio. 

- Para o carro. – eu digo quando ele está preste a subir a rampa e nos levar dali.

Ele me olha, seus olhos brilhando como duas esmeraldas e para no canto mais distante e escuro, sem hesitar. Eu desafivelo o cinto e monto em cima dele, que rapidamente empurra o banco para obter mais espaço. 

E o ataco ao mesmo tempo em que meu quadril começa a subir e descer, esfregando em seu pau duro através das nossas camadas de roupa. Eu me aperto nele e ele me abraça, seus antebraços nas minhas costas, inclinando minha cabeça para trás enquanto puxa meus cabelos, beijando minha mandíbula, meu pescoço, expondo o topo dos meus seios.

- Por favor. – ele implora e isso é novo para mim.

- Você vai estragar tudo implorando. – eu digo enquanto me esfrego mais fortemente em seu colo.

- Por favor, por favor, por favor... – sussurra, pontuando com um beijo.

Dane-se plano.

Eu levanto meu quadril e puxo seu cinto e abro o botão de sua calça em desespero, abaixando o zíper, enfiando a mão dentro de sua cueca e tendo-o em minhas mãos. 

Ele geme.

- Não ousa gozar antes de mim, Edward, ou você ficar um ano sem sexo! – eu brigo, quando o líquido pré-ejaculatório escorre. 

Ele sobe as mãos pelas minhas pernas sob o meu corpo e para na lateral do meu quadril e puxa com força a calcinha, que corta a minha pele, porém, não machuca.

- Essas são mais resistentes. Ainda bem que eu sou especialista em rasgar calcinhas. – ele puxa do meu corpo para retirar o pedaço do pano e eu me esfrego desavergonhadamente em sua ereção. Seus dedos dedilham em meu corpo e encontram o meu clitóris inchado, desejando atenção.

Eu gemo quando ele é atendido.

Inclino meu corpo para frente e passando uma mão entre nós, o agarro fortemente e o guio para minha entrada, que está pulsando em antecipação. 

Nós dois gememos e eu começo a me movimentar e Edward agarra meu quadril para me ajudar, seus dedos apertando minha carne, o espaço com a sensação de ser ainda menor e eu quero tocá-lo, mas ele ainda está vestido, assim como eu.

Era exatamente o que eu queria? Não. Mas era o que eu teria.

Ele abraça meus quadris fortemente, me deixando ainda mais próxima do seu corpo, levantando os quadris de maneira preguiçosa em encontro aos meus movimentos frenéticos até que eu me junto a ele, subindo e descendo lenta e vagarosamente. Sua língua encontra a minha e ele me chupa, suas chupadas em compasso com o que está acontecendo lá embaixo.

Ele aumenta a velocidade e eu assumo o controle. Ele não irá gozar antes de mim.

- Não se esqueça do meu aviso.

Eu o pressiono para baixo, agarrando seus ombros para manter meu equilíbrio e me movimento, cavalgando-o freneticamente, sentindo o prazer chegar a mim através de ondas, meu corpo todo ficando tenso de antecipação até que ele vem... e eu me sinto inebriada. Edward me beija, sugando para si os meus gemidos, se mexendo rapidamente em mim, em busca do próprio prazer e eu mordo seu pescoço, apertando meus músculos internos ao seu redor, enquanto uma risada vingativa sai dos meus lábios.

Eu tampo sua boca com minha mão quando ele alcança o orgasmo e ele chupa os meus dedos, eletrizando partes do meu corpo.

Estamos respirando fundo, nossas respirações descompassadas, abafados dentro do carro. Ele liga o ar-condicionado no frio para aliviar nossos corpos quentes e eu o abraço, antes de voltar para o meu lugar e me ajeitar.

Ele arruma sua calça, se vira e me dá um beijo longo antes de me dá o meu sorriso preferido.

- Você terá que se esforçar para superar este almoço.

Edward dirige tranquilamente, conversamos e eu me sinto feliz, rindo ao seu lado, remexendo no seu cabelo com intimidade, coçando sua nuca delicadamente, enquanto atravessamos a cidade. Ele me deixa na porta do prédio me dando um beijo delicado nos lábios, me olhando com paixão e adoração.

- Casa comigo, mi estrella?

Eu jogo um beijo para ele depois que bato a porta do carro e não o respondo, com um sorriso nos lábios.

Me concentro nos meus afazeres durante a tarde – responder e-mails, atualizar as redes sociais, arrumar a casa, fazer meus exercícios e correr no píer com Manchinha - e, quando volto, me preparo para a minha aula de dança. Meu telefone apita.

Edward: Fico feliz em ter te encontrado no elevador ou teria ido pessoalmente até a sua casa para te enfiar dentro dessa calcinha apenas pelo prazer em tirá-la do seu corpo.

Então, quer dizer que ele abriu a caixa e gostou do que viu? Eu dou um sorriso satisfeito e ele fica enviando mensagens fofas que me faz suspirar, mas eu não dou muita atenção, apesar de ficar feliz em saber o quanto ele está se importando em se desculpar e me fazer feliz.

Nos próximos dias eu me empenho em deixá-lo louco por mim. Até as brigas devem ser contornadas e as desavenças esquecidas. Ele aprendeu a lição a respeito do seu erro e eu já sentia falta do seu sorriso, do seu abraço caloroso, do cheiro que ele dava no meu cabelo e cansada de ficar me esforçando para mostrar o quanto me magoou suas ações. Edward não apenas me amou, mas me reverenciou em cada ato, em cada beijo, em cada gesto, em cada surpresa, em cada olhar. Fez com que eu me sentisse amada, demonstrou seus sentimentos por mim. Ele me amou com carinho e cuidado, lentamente. Me amou vorazmente, com ardor e pressa. Me amou entre o meio termo disso e de todas as maneiras possíveis.

Estava tudo bem.


AGOSTO

- Casa comigo? – ele me cutuca nas costelas, fazendo eu me remexer e fugir para longe do seu corpo. Eu me jogo para o outro lado da cama.

- Huuuum.

- Ei. – ele me puxa para o seu corpo. – Eu odeio ficar longe de você e já é o bastante um mês inteiro.

Eu tinha sido convidada para visitar quatro estados me apresentando junto com a Alvin Ailey American Dance Theater e desde então não tenho mais sossego, pois a cada segundo disponível, Edward faz questão de ressaltar a distância. A viagem se deu por causa do experimento de um projeto piloto, mas que eu levava muita fé: apresentar os mais diversos tipos de danças, apresentando como se fosse uma peça de teatro, mas sem ser. O intrigante era contar história – e aqui estava a briga de um casal, um romance adolescente, um casal recém-casado, um romance abusivo - através da dança, do movimento dos corpos. Estávamos ensaiando com afinco e eu estava ansiosa para começar.

- Eu sei disso. – digo em espanhol, empurrando meu rosto no seu pescoço e ficando quietinha, na esperança que ele me deixe dormir novamente.

Não dura muito.

- Você está dormindo, acorda. – ele diz jogando o corpo por cima do meu, esticando meus braços nas laterais e me beijando. 

- Tudo bem, tudo bem. – me rendo. – Acordei. – e travo minhas pernas em volta da sua cintura, apertando meus braços ao redor do seu tronco.

- Eu já estou sentindo a sua falta. – ele murmura com pesar e meu coração se aquece. É muito amor sendo transmitido.

- Eu sei que sim, mas ligarei para você todos os dias, em todos os horários disponíveis. – argumento mais uma vez. – Não vai dar tempo nem de você ficar com mais saudade ainda.

- Eu sentirei mesmo assim. – ele diz teimoso. – Você está viajando o país enquanto eu estou enfiado dentro daquele escritório. Quão injusto você acredita que isso possa ser?

- Não há nada de injusto quando você irá me encontrar em Las Vegas na última semana. – digo, salpicando vários beijos no seu rosto. Eu giro o corpo e estou deitada novamente ao seu lado, minha perna repousada sob seu quadril, a mão espalmada em seu peito, meu rosto em seu pescoço – meu lugar preferido.

- Sim, eu sei. Mas isso vai durar quatro semanas inteira até que eu consiga encontrá-la! E você estará em Las Vegas, pelo amor de Deus! Eu tenho que lidar com casos de abuso no trabalho, passar o dia inteiro vendo Emmett com um sorriso idiota nos lábios como se fosse a pessoa mais sortuda do mundo, quando esse título é meu. Isso sem contar que você estará longe, então, ainda terei que trazer todas aquelas malditas caixas que chegam aos montes para você e está transformando o apartamento em uma casa de velhos de tão entulhada, e por falar em velhos ainda tenho que aturar a minha mãe em um jantar – sem você! – onde ela insistirá que eu não estou fazendo o bastante, já que não a convenci a se casar comigo ainda! E eu fico pensando até que ponto ela tem razão e volto a questão que você está conseguindo ser tão independente que nem vai precisar de alguém para estar... Ei, você dormiu?

***

- Aproveita a viagem, tome cuidado e seja cautelosa. Se precisar de qualquer coisa, me liga! – Edward diz agarrando meu rosto para um beijo.

- Não irei preocupa-lo ou fazer coisas exageradas. – digo revirando os olhos. – E sentirei saudade de você todos os dias. Tentarei não atrapalhá-lo e não se esqueça da Manchinha.

- Não esquecerei da Verme, não fique preocupada. – ele diz, dando um beijo na ponta do meu nariz. – Dedique-se e mostre o seu melhor. Eu sei que você vai ser maravilhosa e já estou contando os dias para encontrá-la em Vegas. Eu te amo, todos os dias e cada vez mais.

E assim eu embarco junto com a equipe para um novo desafio.

***

Nosso primeiro destino foi a Flórida. Eu não conhecia quase nada dos Estados Unidos, além de Nova York, e estava tão animada com tudo. As águas do oceano me lembraram com nostalgia do meu próprio país. Nas redes sociais eu compartilhei e também perguntei para os diretores e organização do grupo se eles poderiam me disponibilizar cortesias para serem sorteadas para as pessoas que me acompanhavam. Eu achava incrível em como elas se interessavam não apenas pelo que eu falava, mas tentavam vasculhar a minha vida e extrair as coisas boas de mim, que muitas vezes eu não sabia se queria compartilhar.

Ficaríamos durante uma semana em cada estado, com três apresentações, contando a viagem e os nossos ensaios de reconhecimento de espaço, era realmente puxado. Eu falava e mandava mensagens para Edward e as meninas em todos os intervalos, para atualizarem e saberem como eu estava.

Nossa apresentação teve teatro lotado nas três sessões e a equipe acabou cada noite em êxtase, mais unidos e com vontade de fazer melhor a cada apresentação. 

Eu me sentia realizada.

Na segunda semana, paramos no Texas e contribuir para a representação de um romance adolescente através da dança foi uma das coisas mais divertidas que eu tive a oportunidade de experimentar. As apresentações não estavam lotadas, como imaginávamos, mas saíram boas críticas nos jornais locais, o que já valeu a pena. No último dia de apresentação eu fui surpreendida por um grupo de pessoas que me aguardaram na saída do teatro apenas para me encontrar.

Fiquei tão emocionada que liguei chorando de felicidade para Edward.

A terceira parada foi na Califórnia, onde eu me diverti bastante conhecendo a cidade tão alegre e colorida. Eu realmente não tinha vontade de sair para os treinos e sim de desbravar e conhecer tudo que fosse possível. 

Nosso ritmo estava bastante pesado e a cidade gritava felicidade, calor e praias. Tinha tantos lugares bonitos, carros caros, gente descolada por metro quadrado que eu passei a dedicar um pouquinho mais de tempo para e arrumar e tentar ficar pelo menos adequada ao local. Eu ligava para Edward, mandava fotos e dizia que o amava e queria esperava ansiosamente pela semana seguinte, onde, finalmente o teria perto de mim novamente. Era totalmente diferente estar distante dele dessa vez: não era por causa de briga, discussão, ele sendo babaca ou eu o afastando. Estávamos bem, nos amando e sentindo a falta um do outro, distantes por causa dos nossos compromissos. Ele me mandava fotos suas na nossa cama, fazendo a barba, fingindo estar ignorando a Manchinha, no trabalho, de algo que o fez lembrar de mim. E nessas atitudes mais simples eu me dava conta de como é amar o Edward.

Para descrever a apresentação na Califórnia, eu diria que foi agitado. A cidade tem uma energia diferente, uma energia que contagiou todo mundo, que ficou feliz em interpretar a história de um casal recém-casado, felizes, desbravando um novo mundo ao lado de alguém que ama.

Quando agradecemos, foi com sorrisos gigantes no rosto pela recepção calorosa e a sensação de trabalho feito.

Último destino: Las Vegas, Nevada.

SETEMBRO

- Você não deveria desligar o celular? – eu digo para Edward, enquanto ouço a comissária de bordo avisar que todos os aparelhos eletrônicos devem ser desligados.

- Mais um minuto não fará diferença. – ele diz, com um sorriso que eu capto em sua voz. – Eu pareço um adolescente prestes a ganhar um carro desejado pelo pai. Eu nunca senti tanto a sua falta, mi estrella.

Meu coração dispara por sua declaração.

- Eu sei disso. Eu estou esperando por você, boa viagem e me avisa que chegou assim que pousar. – digo, despedindo-me.

Ele tinha alugado um apartamento, já que ficaríamos por mais duas semanas em Vegas, de férias. Eu estava ansiosa para explorar tudo com Edward ao meu lado e também preparada para falar que aceitava casar com ele. Já estava mais do que na hora de aceitar esse pedido, afinal de contas, eu não me via com mais ninguém e ele não me daria sossego até conseguir sua resposta positiva. Não adiantava ficar atormentando o homem, quando era ele que eu queria para compartilhar o resto da minha vida.

Os dias de separação forçada abriram meus olhos para alguns fatos e decidi que não adianta ficar adiando o inevitável.

Vou aceitar seu pedido.

Las Vegas inteira me parece outro planeta, se tivesse como defini-la. Tudo brilha, tudo pisca. Todos os lugares me cheiram a luxúria, sexo, jogos e bebidas. E é tudo muito fascinante. Nossa última apresentação será no palco de um hotel de luxo que fez uma imitação mais do que perfeita das torres egípcias, mesmo para os meus olhos que nunca pousaram sequer em uma pedra daquela terra. 

Era de ficar embasbacado.

Três horas depois, Edward me liga avisando que o avião está taxiando e eu já estou animada, pois é bem no final do horário de ensaio, o que me dá tempo para tomar um banho rápido e esperar por ele. E é o que eu faço. 

Depois do banho, mando uma mensagem para Edward falando onde estarei esperando por ele, solto meu cabelo, visto um vestido colorido bem justo aos seios e soltinho na cintura, coloco sandálias de tiras finas que amarram nos meus tornozelos, deixo meu cabelo bem bagunçado e volumoso e vou de encontro ao que e meu, no saguão. Peço uma marguerita no bar e fico sugando pelo canudinho. Meu telefone bipa.

Edward: Céus, como eu senti sua falta.

Eu leio a mensagem com um sorriso e levanto a cabeça, buscando por ele.

Edward: Eu olho o jeito como o seu cabelo emoldura seu rosto, como você parece feliz e é linda e a única coisa que passa por minha mente é: como sou sortudo.

Eu dou um giro de 360º, mas ainda assim não o encontro.

Edward: Espero que eu possa receber o mesmo tratamento que esse canudinho está recebendo de sua boca.

Eu dou uma risada e o encontro. Ele está tão, tão, tão lindo: os cabelos despenteados, calça jeans e camisa de botões preta com as mangas dobradas até os cotovelos. Seu sorriso atinge meu coração e largando a bebida no balcão, eu corro em sua direção, me jogando contra seu corpo, enlaçando minhas pernas, agarrando seu rosto e beijando-o.

Ele retribuiu e eu sinto como se estivesse flutuando. Eu o beijo profundamente e com amor, tentando sanar a saudade que estava nos consumindo nas últimas semanas, apertando entre minhas pernas, abraçando e rindo.

- Você está com um sabor maravilhoso na boca. – ele diz lambendo os lábios vermelhos dos meus beijos. 

- E eu senti tanto, tanto, tanto a sua falta! – digo, beijando-o novamente, amando-o, puxando sua camiseta para aproximá-lo.

- Qual é o quarto que estamos? – ele sussurra em meus lábios, os olhos faiscando. Meu sorriso se abre lentamente enquanto passamos rapidamente pelas pessoas, em direção ao elevador – onde nos comportamos, pois estava cheio – e voamos para o nosso quarto que ele tinha alugado para ficar próximo de mim até estarmos oficialmente de férias.

***

- Manchinha ficou com Alice? – pergunto, preocupada com a saúde mental da minha cachorrinha.

- Sim, mas gostaria de informá-la que aparentemente ela gosta mais de mim do que de você.

- Ah, é? E posso saber como o senhor espertinho chegou a essa conclusão?

- Bem, eu perguntei: você gosta mais de mim ou da mi estrella, pequena? E ela latiu e lambeu meu rosto, dizendo que sim, como ambos sabemos bem. – ele concluiu com um sorriso desafiador.

Eu apenas alimento sua esperança, pois Alice, Manchinha e Jasper juntamente com Rose e Emmett estão em Las Vegas para o nosso casamento. Claro que estamos em contato constante para não correr o risco de nos esbarrarmos e estragar a surpresa, mas eu estava oficialmente ansiosa.

O plano era o seguinte: eu tinha mais uma semana de ensaios e apresentações, mas pesquisando junto a Alice encontrei uma empresa que faz praticamente tudo nos casamentos que acontecem em Vegas. Eu posso simplesmente escolher o vestido e aparecer para a cerimônia e TCHARAM: casada! Obviamente que eu queria ter a oportunidade de ter mais tempo e escolher calmamente todos os detalhes, mas esse casamento era um espelho de nós dois: impetuosos e cheios de surpresas. 

Como eu ainda estou ocupada com os ensaios, foi mais fácil de despistá-lo, deixando-o o fazer o quer que ele quisesse na cidade, desde que se mantivesse longe de todos-os-clubes-de-stripe-tease! 

Eu fui enfática nesse ponto. Ele riu da minha cara.

Saí do ensaio e fui até a empresa onde uma americana me atendeu super bem, mostrando estar animada tanto quanto eu, mesmo que fizesse casamentos como aqueles umas 6 vezes ao dia. Ela me levou até uma sala enorme com fileiras e mais fileiras de vestidos de noivas embalados e pendurados.

- Como você gostaria do seu vestido? Eu tenho todos os modelos que você imaginar. E se por acaso não tiver, eu irei encontrá-lo para você.

Alice e Rose estavam animadas, já tirando vários e dando gritinhos entusiasmados e foi quando eu virei o manequim de vestidos. 

Eu queria que o vestido fosse romântico e sensual ao mesmo tempo, um balanceando o outro para fazer o equilíbrio que era eu mesma para o Edward. Não sabia que tinha tantos modelos de saias, tecidos, anáguas até estar passando a mão por eles para sentir as texturas. Eu ia e voltava com um vestido diferente, atravessando um corredor com tapete vermelho e segurando um buquê. Eu ri, dancei, fiz pose e compartilhei com as minhas amigas, com a minha família.

E mesmo no meio de tantos vestidos, eu encontrei aquele que eu sabia ser o certo: ele tinha o decote em formato de coração e o corpete todos trabalhado com rosas entrelaçadas com pequenos e finos fios de ouro. Não queria que tivesse mangas, mas ele tinha alças desenhadas com as rosas e pequenas pedras. Ele vinha justo até a minha cintura, delineando todo o meu corpo e se abria em uma saia esvoaçante com várias camadas. Experimentei vários arranjos para cabelo e amarrá-lo em um coque bagunçado e colocar pequenas rosas brancas e destacando bastante meus olhos na maquiagem.

Quando a cerimonialista enfiou um buquê de flores artificiais que caiam levemente sobre meus pulsos e eu me vi no espelho, meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não estava totalmente preparada e já me sentia certa, me sentia a esposa de Edward.

Estava tudo perfeito.

***

Os demais dias se passaram em uma correria sem fim, enquanto eu intercalava meus ensaios com os ajustes com a empresa contratada. Eles faziam simplesmente tudo, absolutamente tudo mesmo, o que me ajudou bastante. O casamento seria realizado em uma cidade fantasma e seria muito íntimo e romântico, sem ninguém para nos perturbar. 

Edward não desconfiou de nada e os próximos dias foram uma mistura de alegria, felicidade plena, beijos, risadas e amor. Eu me sentia completa, finalmente, depois de tanto tempo, e em todas as etapas da minha vida. Eu percorri um longo caminho para chegar até esse ponto e me sentia totalmente confiante de que o meu futuro seria maravilhoso.

O último da apresentação chegou e a equipe estava incrivelmente sintonizada e bem ensaiada. Consegui um ingresso para Edward assistir, mas infelizmente nossos amigos tiveram que ficar de fora para não correrem riscos desnecessários de serem descobertos.

Nós entramos no palco e foi maravilhoso: não era o espetáculo de cabaré que os turistas de Las Vegas estavam acostumados, mas havia sensualidade, coreografia e pele à mostra o suficientes para atrair a atenção de um público consideravelmente grande.

Quando, por fim acabou, nossa equipe se reuniu no camarim para comemorar e eu sentia que poderia flutuar. Fomos convidados a ficar no bar do hotel e foi o que fizemos: nos trocamos e aproveitamos a noite.

Edward me seguia com os olhos e apertou, abraçou, beijou e me manteve ao seu lado. Eu estava feliz, ele estava feliz e eu estava ansiosa pelo dia seguinte. Balançamos nossos corpos de um lado para o outro, olhando no fundo dos olhos um do outro, enfiando a mão nos cabelos e depois passando os dedos para colocá-los no lugar. Eu senti o gosto da bebida na sua boca e aprofundei o beijo, sentindo o seu sabor. Meu corpo estava quente, eu queria subir e aproveitar seu corpo e a minha ansiedade era compartilhada, mas mantivemos essa brincadeira por mais tempo, prolongando o momento e dando pequenas doses de desejos. 

Quando, enfim chegamos até o quarto, eram 5h da manhã. Entramos tropeçando nos próprios pés, levemente embriagados e suados, mas com desejo de sentir o corpo um do outro.  E foi o que fizemos.

Nos amamos com calma. Brincamos com o corpo um do outro, naqueles pontos onde ambos sabiam que a sensação seria triplicada, pela quantidade de álcool em nossos corpos e por nossa paixão incendiária. Nos amamos depressa, com força. Nos amamos explorando o corpo um do outro, rindo, compartilhando.

Nos amamos.

E quando fomos, enfim, dormir o sol já estava a pino.

***

Graças aos céus Rose ligou no meu celular ou eu teria perdido o tempo para tudo! Quando desliguei a ligação, reparei que já era 13h e estávamos jogados na cama, nus. Devagar para não acordá-lo, levantei e fui até o banheiro, onde tomei um banho rápido. Eu precisava sair rapidamente do quarto para começar os preparativos, pois a cerimônia seria às 17h.

- Ei, meu amor. – sussurrei, afagando seu rosto. Ele abriu os olhos sonolentos. – A equipe pediu que eu os encontrasse agora mesmo para uma reunião de conclusão, não demorarei. – e lhe dei um beijo. Ele levantou os braços e me puxou para o seu corpo, me fazendo rir. 

- Vou te esperar aqui. – ele diz com a voz rouca de sono.

- Eu sei que sim. Te amo. – e me desvencilho. Quando chego até a porta, olho para trás e ele já está dormindo novamente.

***

- Ai, meu Deus! Não acredito que estou fazendo isso! E se ele não aceitar? – o ataque de pânico começou a crescer dentro de mim até eu ter que externalizá-lo. 

- Larga de ser idiota, Bella. – Rose resmungou. – Ele vem enchendo o saco há meses para que isso aconteça e você acredita que o Edward, logo ele, não vai aceitar? Por favor. Respire fundo.

Alice estava ao meu lado, ajustando a alça do vestido, verificando a maquiagem e o cabelo. São 16h e para chegar até o local leva mais meia hora.

Chegou o momento.

Meu telefone estava cheio de ligações perdidas do meu futuro marido, até as mensagens começarem a chegar: primeiro perguntando onde eu estava e se demoraria e indo para o estágio da ansiedade e nervosismo do Edward, que me deixava angustiada. Quando tinha culpa no cartório, aquilo servia mais como armamento para usar contra ele, mas dessa vez fez com que eu me sentisse culpada. Alice e Rose não me deixaram falar com ele, mas respondi as suas mensagens rapidamente.

Emmett e Jasper foram de encontro a ele, para levar o terno do casamento e ajudar para que o plano fosse perfeito. Eles tinham que distraí-lo. 

- Vai ficar tudo bem. Jasper me enviou uma foto deles três vestidos lindamente com uma garrafa de uísque do lado. A desculpa colou: fomos convidados para participar de uma festar particular a convite de uma empresa que estaria me patrocinando, então ele não tinha motivos para ficar nervoso. E foi essa a desculpa que eu dei através das mensagens, que eles tinham preparado algo especial para mim e para ele.

- Pelo amor de Deus, Alice! Quero que ele fale o sim sóbrio, não deixe que eles o embebedem!

Ela revirou os olhos como se eu fosse uma criança birrenta. 

- Se você não se acalmar, não vai aproveitar nada do dia de hoje. Você está linda, perfeita, maravilhosa e precisamos ir. – ela empurrou o buquê com rosas de verdade dessa vez e me olhei no espelho de corpo inteiro.

Eu estava linda e pronta para me tornar Isabella Masen.

***

Edward: Onde você está? Emmett e Jasper não falam e eu estou começando a ficar puto. Estou no meio do nada, o que significa que para os padrões de Las Vegas é algo preocupante.

Bella: A equipe pediu que homens e mulheres cheguem separadamente, eles também não estão me falando muito a respeito, mas eu estou ansiosa para encontrá-lo!

Edward: Bem, se você não aparecer logo, então teremos um problema. Avise a sua equipe.

- Falta muito? – perguntei para a cerimonialista, que estava dirigindo e conversando com Alice e Rose.

- Cinco minutos e chegaremos até lá. Eu começaria a me preparar se fosse você.

- Eu já estou preparada.

Ela sorriu através do retrovisor. 

- Assim que se fala! – ela comemorou. – Conforme o que você tinha sugerido, terá um pequeno altar com muitas flores brancas para dar o romântico e íntimo que você desejou. Seus amigos ficarão cada um de um lado e serão as testemunhas. Uma banda de 5 músicos está aguardando e fará toda a trilha sonora desse momento tão especial na vida de vocês. Com os nossos fotógrafos a postos, conseguiremos pegar o pôr do sol nas imagens e ficarão extremamente lindas, pode acreditar. – ela começou a tagarelar, repassando tudo que eu já sabia. – Seu futuro marido só vai realmente descobrir o que irá acontecer quando chegar lá! Isso é tão legal! E... chegamos!

Eu olhei em volta e era lindo: parecia um cenário de filme, com uma casa que parecia ter sido construída por uma equipe gigante de produção de um filme de faroeste. Se eu fechasse os olhos, conseguia imaginar um maço quadrado de palha, voando através da estrada. Atrás tinha grandes serras em tons amarelados, o verde se sobressaindo em alguns pontos. Era rústico, era lindo, era íntimo.

- Onde ele está? – perguntei para Alice e Rose que já tinha descido do carro e estava olhando o local com os olhos encantados. – Você já o viram?

- Não ainda. – Alice falou, tomando o buquê das minhas mãos enquanto eu ajeitava o vestido para sair do carro. Segurei o volume da saia, retoquei de leve o batom e me olhei em um espelho. Meus olhos estavam brilhantes e ansiosos, meu coração estava disparado e eu estava com uma mistura de medo e alegria.

- Está pronta? – a cerimonialista perguntou.

- Estou. – respondi com um grande sorriso, inflando o peito e realmente preparada para esse grande passo. 

Caminhamos devagar, rodeando uma velha casa de faroeste que parecia que iria cair a qualquer momento, mas que aparentemente era só impressão mesmo. O céu estava azul e sem nenhuma nuvem, ficando em tons alaranjados conforme se punha no horizonte.

- Nós iremos encontrá-los agora. – Rose disse, sapecando um pequeno beijo no meu rosto. – Boa sorte, Bella! Seja feliz e eu te amo!

Meus olhos lacrimejaram e eu ameacei desabar no choro naquela hora mesmo.

- Não, não, não! – Alice já estava dando pancadinhas embaixo dos meus olhos e me obrigando a respirar fundo e olhar para cima, para evitar manchar a maquiagem. – Nada de choro, meu amor. – ela acariciou meu rosto com carinho. – Nos encontramos bem ali e estaremos transbordando de amor e carinho por vocês.

E então elas foram de encontro ao meu futuro marido e seus respectivos namorados, dando a volta no casarão e atravessando alguns carros velhos e objetos antigos, que compunham a paisagem.

- Onde está a Bella, onde está mi estrella? – ouvi Edward perguntar. Alice e Rose se revesaram para explicar, mas como ele aumentou o tom de voz, acho que não acreditou muito. Rapidamente meu celular começou a tocar dentro da bolsinha que estava com a cerimonialista.

Ela apenas abriu e me repassou o telefone que aparecia o nome do Edward a tela. Ela me incentivou a atender e o fiz.

- Oi.

- Que brincadeira é essa? – tão Edward com esse tratamento. – Você sumiu desde o ínicio da tarde, me dá respostas evasivas e agora suas amigas chegam sem você aqui. Onde está? Irei buscá-la agora mesmo! O que está acontecendo, mi estrella?

- Eu estou indo encontrá-lo agora mesmo. – falei com um sorriso no rosto, os olhos marejados novamente. – Eu estou indo agora. Eu te amo.

Desliguei o celular, entreguei para ser guardado novamente e fui caminhando calmamente para o seu encontro. Quando eu virei a esquina da casa, o que eu vi me deixou sem fôlego: o céu parecia que iria explodir em tons de vermelho, alaranjado, amarelo e azul no horizonte. Havia uma pequena capela posicionada com tantas flores quanto eu poderia ter imaginado. Mas quando eu vi Edward, eu ri. Ele estava com o cabelo bagunçado, pois deveria ter passado os dedos por eles de nervosismo durante a espera. Emmett estava arrumando o colarinho do seu terno escuro quando ele me ouviu e olhou em minha direção.

Eu parei para absorver a cena a minha frente e ele girou seu corpo para me olhar completamente. Seus olhos estavam confusos, mas rapidamente como se eu tivesse apenas sonhado, eles estavam flamejando de prazer, seus lábios se abrindo em um sorriso vitorioso.

E como se estivéssemos em um filme, a banda começou a tocar Photograph do Ed Sheeran. Edward começou a caminhar em minha direção e eu parei para esperar que chegasse até mim. E quando o fez, foi como se um terremoto atingisse meu corpo, pois ele segurou meu rosto em suas mãos e pressionou os lábios contra os meus fortemente, me prendendo em si, sem deixar que eu me afastasse. Eu passei os braços por seu pescoço, o buquê perto de bagunçar ainda mais seu cabelo.

Ele se afastou, ainda segurando o meu rosto e falando muito próximo de mim.

- Eu não acredito, eu não acredito, eu não acredito que você está fazendo isso!

Eu sorri e apoiei minha testa contra a sua e logo depois dou um beijo rápido na ponta do seu nariz, como ele muitas vezes faz comigo.

- Eu quero te perguntar algo. – falo sussurrando contra seus lábios.

- Não. – ele diz apertando ainda mais meu rosto, o que me faz rir. – Você não pode simplesmente organizar tudo isso e ainda querer fazer a pergunta, como se eu não estivesse insistindo e fazendo de tudo para receber a sua resposta nos últimos meses!

- Tudo bem, me pergunte. – eu digo encarando-o.

Ele se afasta apenas para olhar meu rosto minuciosamente, das minhas sobrancelhas até minha boca e meu cabelo e orelhas com brincos.

- Eu acho que estou sonhando. – ele diz com uma expressão de extrema ternura. Eu acaricio o seu rosto da mesma forma.

- Não está. 

- Mi estrella, Isabella Martínez, meu amor: você aceita se casar comigo? – ele pergunta com a intensidade típica do Edward.

- Aceito.

E então ele me abraça, nos girando no lugar enquanto a minha risada se espalha pelo local e ouço meus amigos ovacionando. Quando ele me põe no chão, eu finalmente consigo definir o significado de felicidade.

***

Caminhamos juntos através do tapete estendido até a capela e o juiz de paz que nos espera, com um sorriso enorme no rosto. Subimos o degrau e ficamos lado a lado.  

- Eu te amo. – eu sussurro para ele.

- Eu amo você. – ele responde, dando um leve beijo na ponta do meu nariz, o que me faz rir.

A cerimônia é rápida, mas tão emocionante que eu fico em dúvida se trocaria este momento por um casamento planejado há meses. Edward segura minha mão como se não acreditasse, verdadeiramente, que tudo estava acontecendo. Ao fundo, a banda ainda cantava baixinho para não atrapalhar as palavras do juiz de paz e eu me sentia flutuar.

- Edward Masen, você aceita Isabela Martinez como sua esposa?

Ele se virou de frente para mim.

- Eu posso falar algo antes de aceitá-la na minha vida para sempre? – ele pergunta ao juiz de paz, mas com os olhos fixos em meus olhos.

- Esteja à vontade. – ele diz, dando um passo para trás, dramatizando ainda mais a cena em si. Eu sinto como se meu rosto não fosse voltar ao lugar depois de ficar com o meu sorriso de alegria estampado durante tanto tempo.

- Mi estrella, você faz com que eu me sinta o homem mais feliz, realizado e sortudo do mundo. Eu amo estar com você, compartilhando as poucas tristezas e as muitas alegrias, vendo-a conquistar o mundo, como eu sei que sempre quis mas nunca realmente pensou que fosse acontecer. Hoje eu posso dizer que amo até os meus muitos defeitos e erros que cometi ao longo do nosso relacionamento, pois eles nos trouxeram a este exato momento. Porra, Bella. Eu pensei que você nunca fosse aceitar e eu já estava tentando me conformar com isso, afinal de contas, quem quereria se casar comigo? – ele faz a pergunta retórica, relembrando o quanto achava seu amor indigno. – Mas você me ama, você me surpreende e eu amo cada pedaço seu, cada momento que compartilhamos e cada bagunça que eu fiz em nossas vidas. Eu não a aceito apenas como esposa, mas como o amor a minha vida. O único amor para toda a vida. Eu aceito você.

Nesse momento eu já tinha desistido e enquanto ria de suas palavras, lágrimas escorreram por meu rosto. Eu esperava que os fotógrafos capturassem cada um desses momentos.

O juiz de paz reviveu seu papel e me perguntou:

- Srta. Martinez e futura Sra. Masen: você aceita Edward Masen como seu marido?

- Eu prometo aqui, diante de nossos amigos e desse juiz de paz, que eu o aceito como meu marido, como meu companheiro, como meu amigo, como meu dançarino particular, como meu amante, como meu tudo. Não prometo que você será o centro do meu mundo pois você ficará muito convencido – ele ri, sabendo que é verdade. -, mas prometo que eu serei, sempre, o centro da sua vida. – ele joga a cabeça para trás em uma sonora gargalhada. - Eu prometo, porém, que sempre irei te amar, mesmo quando não parecer, mesmo quando eu não demonstrar, mesmo quando você fizer alguma babaquice, eu sempre irei te amar. Por que eu sei que você é simplesmente o amor da minha vida e eu estou preparada para essa jornada de amar alguém incondicionalmente e esse alguém é você. Eu o aceito.

O restante da cerimônia foi como um borrão para mim, pois minha felicidade parecia deixar tudo enevoado. Eu só lembro que Edward, finalmente, me puxou para si e me deu um longo e lindo beijo – eu sabia que as fotos ficariam lindas! Rapidamente nossos amigos vieram até nós e abraços e beijos foram trocados. Já estava no ínicio da noite quando entramos em dois carros e voltaríamos para comemorar por Las Vegas inteira. 

- Podem seguir. Encontraremos vocês onde estiverem. – Edward falou para Emmett pelo celular. Riu de algo que ele falou, desligou e enfiou no bolso interno do terno. Ele parou o carro no meio da estrada deserta e abriu a porta, me puxando para fora enquanto eu ria. Estávamos ao redor de varias montanhas e ainda estava claro, apesar de ser ínicio da noite.

-Venha cá. – ele me puxou para o seu corpo e eu me deixei ir. Ele segurou minha mão e enlaçou minha cintura e começamos a nos balançar ao som de uma música imaginária. Eu pousei meu rosto em seu ombro e me deixei ser embalada.

- Eu pensei que você nunca se casaria comigo. – ele comentou, com uma risada. – E agora mal posso acreditar que você é minha.

Eu levantei meu rosto do seu ombro, fitando-o.

- Eu não sou de ninguém. Eu sou de mim mesma.

- Não foi com isso que você acabou de concordar, querida. – ele diz provocativo. Eu aperto suas costelas. Ele ri e me abraça novamente. – Eu sei que você é de si mesma, mi estrella. Isso é uma das coisas que eu mais amo em você: tão forte, tão independente, tão confiante. O que importa é que eu nunca tive alguém para dizer que era meu: meu irmão, minha irmã e não falarei que Emmett e Jasper são meus, não da maneira com que falo de você.  E agora você é minha: minha esposa, mi estrella, minha Bella.

- Eu o ouvi antes que me ligasse. – eu sussurro em seu ouvido e volto meu rosto para encarar o seu. Ainda estamos dançando. – Você parecia furioso e aflito.

- E estava. Eu odeio ficar longe de você e eu senti que estavam me enganando e comecei a pensar o pior. Eu não queria pensar nisso, mas sei que você tem motivos para me deixar e que viveria muito melhor até sem a minha presença, mas eu não iria desistir. Eu nunca a deixarei ir sem que me diga explicitamente o que deseja. E talvez nem dessa forma.

Eu paro nossos corpos e agarro seu rosto e o beijo fortemente, comandando o beijo e inclinando a sua cabeça para que eu o beijasse tão profundamente quanto fosse possível.

- Eu não vou deixá-lo. – eu digo em seus lábios. 

- Você promete? – ele sussurra em resposta.

- Eu prometo.

Depois disso Edward coloca seu telefone no timer em cima de uma pedra, me usando para enquadrar o ângulo. Daí então vem até o meu encontro e temos fotos de nós dois, registrado juntamente com esse dia maravilhoso e essa vista esplendorosa.

E é com essa foto que eu compartilho com o mundo que eu sou uma mulher casada e feliz. Extremamente feliz.

***

Nós passamos três semanas incríveis em Las Vegas, viajando de carro nas redondezas, sem horários para fazer nada, mas acabamos diminuindo nossa estadia no deserto e fazendo uma visita curta a São Francisco e dessa vez eu realmente aproveitei. Nós saímos para dançar e bebemos drinques coloridos com sabor de frutas tropicais, banhamos no mar de águas claras e visitamos pontos turísticos da cidade. 

E finalmente voltamos a nossa realidade.

Eu estava sonolenta, apoiada em seu ombro quando o avião pousou em Nova York. Ele me ajudou a arrastar minhas duas malas, depois de quase dois meses longe de casa, até conseguirmos um carrinho para pousar toda a nossa bagagem e chamar um táxi. Saudei a cidade com uma saudade que eu não esperava sentir e percebi, com um sorriso no rosto, que agora eu era legalmente uma cidadã americana.

- O que está pensando? – ele perguntou, pousando os lábios no meu cabelo e me dando um beijo.

- Que agora eu não preciso mais me preocupar em estar ilegal aqui.

Nós chegamos ao apartamento de Edward e eu me dei conta que não saberia onde iria morar agora. Seria ali, naquele apartamento mesmo?

- Bem-vinda a nossa casa. – ele diz, empurrando as malas de qualquer jeito pela porta e me abraçando. – Eu poderia ter feito algo diferente para a sua chegada até aqui, mas não esperava voltar casado de Vegas.

E me agarra e nos beijamos até tombar por cima do sofá, nossas pernas se emaranhando. 

- Está tudo ótimo desse jeito, Edward. Não precisa mudar. – e me mexo para me encaixar melhor no sofá e enfiar meu rosto no meu lugar preferido: seu pescoço.

Nosso primeiro sono foi no sofá do nosso apartamento, espremidos e felizes.

***

- Precisamos buscar tudo que é seu. – ele falou no outro dia, pela manhã. – Eu sinto como se você estivesse apenas passando alguns dias por aqui, como antes. – ele enruga a testa, como se estivesse realmente pensando nisso.

- Eu vou trazer tudo, Edward. Eu só estava muito cansada nos últimos dois dias.

- Sim, sim. Mas preciso que seja agora mesmo. Quero compartilhar minhas roupas com você. Meu creme de barbear sente falta de companhia e seus cremes e escovas e o que mais você usa irá ser ótimas companhias. 

Ele inclina minha cabeça sob a cadeira onde estou mordiscando uma torrada e pousa um beijo em mim.

- Vou me arrumar, tudo bem? Já saímos e buscamos tudo, mas com a condição que eu não quero uma reclamação. Umazinha sequer.

- Ahãm. Tudo bem, mulher. – ele diz indo até a despensa e separando os rolos de plástico bolha e as caixas de papel desmontadas. – Até imagino o que encontrarei por lá.

Vinte minutos depois chegamos ao apartamento que eu compartilhava com Alice.
Edward tinha contratado uma equipe de mudança que acabou ajudando bastante. No fim do dia, quando boa parte das minhas coisas estavam empacotadas, a equipe veio e levou tudo para sua casa. Arrumei por fim meu escritório, peguei todas as coisas da Manchinha e estava oficialmente pronta para começar a minha vida de casada.

***

- Você está feliz? – ele perguntou me abraçando pela cintura e beijando meu ombro, enquanto eu penteava meu longo cabelo.

- Eu estou feliz. – respondi com um sorriso. – De uma maneira que eu pensei não ser possível. Você me faz feliz.

Nosso apartamento agora parecia o lar de duas pessoas: antes era tudo muito escuro e eu rapidamente fiz questão de arrumar algumas coisas, deixando mais colorido e vibrante. Um quarto de visita se transformou no meu escritório e o outro em um closet improvisado. Eu gostava do lugar e do que estávamos construindo juntos.

Frequentemente os pais de Edward apareciam para nos visitar, o que me deixava extremamente flutuante. Eles me receberam muito bem no seio familiar e me adotaram como uma filha e eu simplesmente não conseguia recusar amor e carinho e ajudar com que Edward melhorasse seu relacionamento com os pais.

Obviamente que nem tudo são flores, mas não tenho muito que reclamar. Edward melhorou drasticamente e essa mudança fazia toda a diferença para mim: ele não interferia na minha vida profissional, pelo contrário, me apoiava tanto que às vezes eu olhava incrédula. Quando tinha alguma dificuldade me apoiava, quando eu queria desistir não deixava. Somos confidentes e amigos um do outro, soubemos delimitar nosso espaço pessoal e aceitávamos quando era necessário um tempo para respirar.

Conhecemos outros países, alguns por causa do meu trabalho que cresceu consideravelmente. Agora eu, Rose e Alice montamos uma pequena empresa, onde elas me ajudavam a ganhar dinheiro na internet e posso falar? Estamos indo bem, obrigada. Outros planejados com alguma antecedência e algumas de última hora.

Compartilhamos brigas e paixão, segredos e revelações, choros e alegrias. Nossa relação era intensa e se manteve. Eu tinha receio que algo mudasse, mas até nossas brigas se mantiveram com a diferença que eu o punia sem sexo por um tempo menor e nunca dormíamos brigados, por maior que fosse a raiva.

Eu nunca imaginei que chegaria a esse ponto, de amar alguém tanto quanto eu amava o Edward. De conhecer a felicidade plena, de ser reconhecida, amada e querida. Minha vida deu um salto gigantesco, mas na minha jornada o que eu mais aprendi foi que tudo tem um por que. E todos os porquês as suas consequências. Parece que a nossa história foi contada através de milhões de palavras e que se passaram longos e distantes anos, mas quando percebo que não foi tantos assim, vejo que não tinha outro caminho a não ser cair em seus braços.

E é o que eu faço. Estamos passeando no Central Park em um dia bem quente de verão. Eu quero um algodão doce e ele vai até um senhor enquanto eu aguardo sentada na grama com Manchinha no colo, com a língua para fora. Quando ele volta, senta-se e eu me posiciono entre as suas pernas, deixando a minha guloseima derreter na minha boca. 

- Você está feliz? – ele pergunta enquanto acaricia meu estômago levemente arredondado. Essa pergunta já faz parte do meu dia-a-dia. Em momentos distintos do dia ele me pergunta e eu respondo sinceramente.

- Eu estou. E você? – e enfio um tufo do meu doce na sua boca. Adorava que ele agora fazia tudo, absolutamente tudo que eu queria. Ele ri enquanto chupa as pontas dos meus dedos.

- Eu sou muito feliz com você, mi estrella.

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