Oi, queridos leitores!

Como estão? Estou me preparando para voltar às aulas... e claro. As ideias para o final de SRLT estão pipocando na minha cabeça e na da Gabi. Estamos a todo vapor, nossas ideias se confraternizando, pensando na melhor da maneira de concluir essa história.

Deixaram alguns comentários: uns bem irritados com a Bella. Sim, eu também estou irritada com isso e mesmo que eu não goste de confessar isso por que a Gabi fica se gabando, me bate uma dó no peito pelo Edward... mas vamos ver como a história vai se desenrolar antes de qualquer coia.

Bem, esse capítulo é um avanço muito grande. Foi escrito com muito carinho, tem umas cenas fofas, outras divertidas, talvez alguma triste... mas esperamos de coração que vocês gostem.

Com isso eu me despeço por aqui e espero que vocês tenham uma boa leitura.

Com carinho.

Capítulo 24
Todo lo que sabemos del amor es que el amor es todo lo que hay.


POV ISABELLA

Nós saímos para comemorar! Sim!

Eu e Jake tínhamos arrasado com a nossa apresentação, e a minha confiança estava mais do que absoluta, relembrando cada um dos passos, comentando os outros candidatos, percebendo quais apresentavam maiores riscos futuramente, vibrando com a nossa primeira vitória! Saímos todos juntos e eu não sei aonde realmente fui parar, só sei que tinha música de boa qualidade, lembro que o Emmet repetiu várias vezes ‘arriba!’ junto com Jasper enquanto eu e Jake vibrávamos, tentando manter uma conversa que era composta mais por risos, gargalhadas e copos sendo batidos na mesa.

Eu não bebi. Pelo menos não muito. Apenas para comemorar. Eu conseguia saber o que estava acontecendo comigo e era tão importante ter em mente isso, que não quis sobrepor com o possível esquecimento que a bebida traria no dia seguinte.

E eu não me importei realmente. Fazia tanto tempo que eu não me sentia tão leve, tão feliz, tão realizada! Eu lembro apenas que não tinha bebido para perder os sentidos e que consegui chegar até o meu quarto e despencar na cama.

Quando eu acordei, estava muito mais frio e pela janela do hotel eu via as pessoas passar com mais roupas de frio em seus corpos do que no dia anterior. Relaxadamente eu me dei o prazer de demorar no banho e vestir algo confortável. Quando voltei ao quarto, Rosalie estava sentada na cama e tinha uma caixa ao seu lado:

- Pediram para te entregar isso. - ela disse com um sorriso cúmplice, enquanto apontava para o embrulho. - Espero que seja alguma coisa que te faça feliz. - e levantando de um salto, atravessou o quarto em direção à porta, apenas para me dar um beijo no rosto.

Assim que a porta foi fechada, eu corri e peguei o envelope com a seguinte:



Mi estrella,

Prometi que continuaria mandando as cartas e estou cumprindo minha promessa. É diferente escrever você estando assim tão perto, mas tudo está diferente agora, então não me surpreendo. A começar que eu me sinto um pouco mais livre para escrever não tendo que medir cada palavra para que não entenda mal.

Depois que nós conversamos, eu entendo melhor sua posição e o seu pensamento. Ao mesmo tempo em que isso me alivia, também me aflige. Por saber melhor o que se passa dentro de sua cabeça, admito que nem todas as respostas me agradaram, mas elas foram mais do que eu esperava.

E embora nós tenhamos combinado em manter tudo casual, eu não posso evitar dizer que sinto mais sua falta agora do que quando estava em Cuba. Não apenas por que você está mais perto e a limitação em vê-la seja massacrante, mas por que até vê-la eu tinha essa ideia de que talvez a maior parte de você fosse apenas minha idealização. Mas quando eu te encontrei percebi que nem a idealização se aproximaria da realidade.
 

Eu sinto muito se estou te deixando desconfortável e sou sincero quando digo que não espero que responda as minhas palavras. Mas o ponto, minha estrela, é que eu só sei escrever o que sinto. Qualquer outra coisa seria mentira, e se então fosse, o melhor seria que eu deixasse a página em branco.

Não tivemos muito tempo para conversar depois da apresentação do concurso e caso meu sorriso besta não tenha deixado claro, você foi maravilhosa. Você é a primeira pessoa de quem sinto orgulho, Bella, e seu sucesso é meu orgulho.
 
Um último adendo, eu já garanti os ingressos para todas as apresentações. Por que caso não tenha notado ainda, você já ganhou esse concurso.
 

Edward.  
 
P.S. A saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.

Junto à carta, havia um cartão colado ao presente. Antes de pensar em abrir a caixa, descolei o cartão e novamente busquei suas palavras.

Sei que vai achar que o presente é desnecessário, mas, por favor, não recuse. Pensei em algo que pudesse lhe ser útil assim como prazeroso e algo me diz que você vai gostar. E pode ignorar se eu estiver sendo insistente, mas talvez você reconsiderar o meu pedido? Eu gostaria de poder conversar com você outra vez e, se bem me lembro, tenho a promessa de te levar para tomar o melhor café de Nova Iorque para cumprir. Sempre que possível, cumpro minhas promessas. Então, por favor, minha estrela, não me faça começar a voltar em minha palavra agora. Espero sua resposta.

Edward.

Dentro da caixa que eu desfiz o embrulho com cuidado, tinha um par de sapatilhas.  Meus olhos se encheram de lágrimas. Era apenas um presente, mas passa a ser muito mais que isso quando vem carregado de tantas palavras bonitas e - principalmente - de sentimentos. Ela era toda dourada, com detalhes na parte detrás, toda enfeitada na parte do calcanhar. Com carinho, calcei uma delas e coube perfeitamente no meu pé. Coloquei também a outra e saí bailando pelo quarto. Um presente realmente merecido depois do meu esforço? Não sei, o que sei apenas, é que por mais que eu lutasse, Edward ainda tinha o meu coração. E com essas atitudes ele estava me mostrando mais uma parte do homem que eu comecei a conhecer em Havana.

Desesperada para agradecê-lo, agarrei o telefone. Como se ele estivesse ao lado, no segundo toque atendeu.

- Olá. - ele respondeu já com um tom de riso e felicidade na voz.

- Oie, Edward. Acabei de receber seu presente. Estou ligando para agradecê-lo.

Ouvi seu suspiro de contentamento.

- Não foi nada, Bella. Você estava ótima dançando. 

- Obrigada! Eu estou tão feliz, tão entusiasmada! Todos os meus medos iniciais valeram a pena já que... - parei bruscamente de falar. - Desculpa por ficar devaneando assim com você.

A culpa era a minha e do meu inconsciente que não conseguia diferenciar quando eu tinha que falar e manter a boca calada. O problema é que eu me sentia muito bem conversando com ele a respeito de... Tudo.

- Ei, não precisa se desculpar por nada. Continue, por favor. - ele insistiu.

Não tinha aquele tom autoritário ou sarcástico que tantas vezes eu o vi utilizar.

- Aaaaaaaaaah, é só que foi realmente uma ótima experiência. Eu estava tão nervosa, distraída até... - comentei. Percebi que a sua respiração ficar pesada através da ligação. - e foi reconfortante e estimulante participar de um concurso desse porte depois de tanto tempo. Você começa a avaliar seus oponentes como iguais realmente e acaba aprendendo muito. Por sermos de lugares totalmente diferentes...

- Me deixe dizer a você pessoalmente o quanto estava maravilhosa na outra noite em que esteve dançando? - ele me cortou.

- Como?

- Aceite tomar um café comigo. Você está me devendo. E pelo jeito, está à procura de alguém para conversar.


POV EDWARD

Quando desliguei o telefone, mal podia acreditar. Ela tinha aceitado. Houve aquele precioso momento de euforia que se seguiu que eu quis dar uma de louco e berrar pela janela, mas me controlei. Eu iria permanecer o mais tranquilo possível, antes que acabasse estragando as coisas.

E enquanto me dedicava a um momento ou dois de meditação, ocorreu-me uma ideia. Embora eu houvesse prometido levá-la para tomar o melhor café de NYC, descobri que tinha um lugar onde eu queria levá-la ainda mais.

Era arriscado, com certeza. Eu teria que ligar para ela outra vez para ter certeza que ela toparia, mas não diria o local. Parte minha temia que ela fosse recusar, mas eu precisava arriscar. Tinha comprado a cabana pensando nela e sempre imaginei, mesmo que fosse ficar só na imaginação, que um dia eu a veria lá.


Andando pela praia, com o vento insistentemente balançando seu cabelo enquanto ela gargalhava por nada em especial, simplesmente por estar feliz.

Eu sacudi a cabeça antes que as imagens se firmassem a ponto de eu tentar concretizá-las e resolvi me mexer. Se eu planejava levar Bella até a cabana, precisava garantir que estava tudo em ordem lá ou passaria vergonha.

Peguei as chaves do carro e saí pela porta. Sem perceber comecei a assoviar dentro do elevador e ao chegar ao térreo, o porteiro percebeu.

- O passarinho verde já te visitou hoje, Edward? – ele brincou.

- Ah, sim. Ele foi muito generoso. Até mais tarde.

A viagem durou pouco mais de uma hora; devido ao horário não tinha trânsito e aquilo foi uma benção. Foi de certo modo um choque para mim ao ver a casa pronta e o belo trabalho que eles tinham feito.

Um pouco abestado, atravessei o portão e caminhei até a porta. Lá dentro, um sentimento de grande satisfação me envolveu com o que encontrei. Mas eu estava certo, o local precisava mesmo de uma geral. Havia um tempo desde o fim da reforma e a cabana tinha ficado fechada por aquele período. Arregacei as mangas e coloquei as mãos à obra.

Fazendo o possível para retirar um pouco a poeira do corpo, percebi em seguida que precisava abastecer a geladeira. Se estava planejando leva-la para passar o dia, tinha que garantir que ela estaria confortável.

Decidi, no entanto, que deixaria para comprar alguma coisa mais para perto do final de semana. Não teria como deixar a geladeira ligada em uma casa vazia para que a comida não estragasse. E ainda tinha o grande ‘porém’: eu não sabia como fritar um ovo na cozinha, como iria garantir nosso alimento? Não era como se fosse pedir a Bella para cozinhar. No mínimo, ela acertaria minha cabeça com uma frigideira. 

Problema para outra hora, Edward. Anotei no celular algumas coisas que precisava comprar para levar e algumas coisas que precisava levar de casa. Resolvi comprar itens emergenciais como de higiene em uma farmácia mais próxima enquanto ainda estava lá. A verdade era que eu queria criar todo um cenário propício para que até o universo conspirasse a favor da decisão de minha estrela.

Então era só ligar e rezar para que ela topasse a mudança de planos. 

 POV ISABELLA

Eu iria sair no final de semana com Edward. Porém, eu teria carta branca para decidir a respeito de tudo. Ele aceitou as minhas regras de que se eu não me sentisse bem poderia ir embora, já que ele fez segredo quanto ao local, mas me prometeu que deixaria o endereço completo e telefone com as meninas, se precisassem entrar em contato, eu ficaria apenas na sexta-feira e se - caso - eu quisesse, prolongaria a minha estadia pelo sábado e domingo. Não seria pressionada, não falaríamos do passado.

Seríamos apenas como amigos que estavam passando um dia juntos. E não iria me obrigar a nada. Claro, eu sabia que isso não ia dar certo. Que em sã consciência sai com o homem no qual ainda é apaixonada, já tocou todo o seu corpo e seu coração, te fez rir e odiá-lo ao mesmo tempo, dançou, compartilhou do seu passado trágico mais do que com qualquer outra pessoa e pensaria que sairia ilesa? Eu sabia que não ia funcionar. Eu sabia. Mas tentei.

E logo às seis e meia da manhã de sexta eu estava pronta.

Ele, claro, iria aproveitar todo tempo que eu tinha concedido. Por isso não reclamei quando ele se prontificou a me buscar logo no final da madrugada. O telefone tocou no quarto silencioso enquanto eu pegava minha bolsa com algumas roupas e pedia para a recepção avisar que eu estava descendo. Como eu não sabia pra onde iria e duvidada muito que fosse apenas por um período do dia, tinha separado algumas peças de roupas, para qualquer imprevisto. E coisas importantes e pessoais. Enfiando um gorro na cabeça, vestida com o sobretudo e botas esperei pelo elevador.

Quando cheguei ao térreo, encontrei Edward com as mãos dentro dos bolsos do caso muito grosso de frio que ele usava. Pelo horário que estávamos saindo, eu imaginei que estaria sim muito, muito frio. Mas quando ele virou, seu rosto estava com um lindo sorriso e os cabelos levemente bagunçados do jeito que eu me lembrava tão bem, com calças grossas e botas pesadas.

- Bom dia. - ele falou dando um beijo rápido no meu rosto, segurando levemente meus ombros. - Sei que está muito cedo, mas vamos para fora da cidade.

Um pouco desorientada com o seu cheiro e como ele estava lindo logo pela manhã, respondi:

- Tudo bem. Mas... - olhei em seus olhos. - Caso eu queria voltar, será um problema? - e fiquei encarando - o, buscando em seu olhar a sinceridade e honestidade que eu precisava.

- Isso foi algo que você deixou muito claro assim que aceitou isso, Bella. Se você quiser voltar, é o que faremos. Eu nunca te prenderia em um lugar que você não queira estar. - ele respondeu, segurando o meu olhar e transmitindo tudo que eu precisava sentir.

Suspirando com alívio e feliz de saber que ele estava bem lembrado de tudo, comecei a caminhar para a saída do hotel.
- Ok, podemos ir.

Ele abriu a porta do carro para mim, enquanto eu me aconchegava e dava boas vindas ao ar quente. Ele entrou pelo outro lado assoviando de frio e partimos.

Enquanto o carro entrava na avenida, atravessando os carros e seguindo o seu caminho, nós ficamos calados. Eu olhava para as minhas mãos, tentava absolver cada detalhe do carro e pensar em alguma coisa pra quebrar o silêncio. Ele me mandou um sorriso de lado enquanto apertava o botão e eu reconheci a voz inconfundível do Michael Bublé começar a tocar baixinho o suficiente para deixar o ambiente menos tenso. Por incrível que pareça, eu não estava com sono. A presença de Edward era forte demais para que eu me preocupasse com isso.

- Você pode colocar a sua bolsa no banco traseiro. Sente-se um pouco mais confortável. Você parece tensa. - ela disse enquanto olhava mais uma vez pra mim com aquele sorriso triunfante.


Soltando a respiração que eu não sabia que estava segurando, me inclinei entre os dois bancos e repousei minha bolsa. Quando eu retornei ao meu lugar, ele estava cantarolando baixinho.

I can her heart beat for a thousand miles
And the heaven’s open up every time she smiles
And when I come to her, that’s just where I belong
Yes, I’m running to her like a river’s song 

E mesmo não conseguindo me comunicar fluentemente no idioma dele, eu sabia o que aquelas palavras significavam.

- Você parece feliz. - observei.

- Como não? Estou saindo a dirigir pela estrada, teremos uma bela vista até o nosso destino final e passarei o dia com você. Dizer que eu pareço feliz é até ridículo. Estou estupendo.

- Poxa, que bom. - falei enquanto encostava o rosto no vidro e a minha respiração embaçava o mesmo.

- Você não está feliz?

- Eu não... Sei. - suspirei por fim, me acomodando de uma forma no assento que meu corpo ficasse encostado na porta e eu conseguisse olhá-lo diretamente. - Por enquanto, eu ainda não sei como me sentir com você aqui ao meu lado, indo a algum lugar desconhecido. Eu tenho a impressão de estar sendo sequestrada. - terminei com um riso.

- Eu não estou sequestrando você.

- Mas também não vai me dizer onde estamos indo...

- Não, não direi. Não é um lugar que você conheça, mas que eu espero que goste. E a propósito, você está linda com esse gorro, Bella. Era o tipo de roupa que eu não pensei que fosse ver você usar algum dia, já que em Havana sempre fez tanto calor.

Fiquei em silêncio, com a sobrancelha arqueada até que ele me olhou por conta do meu silêncio.

- O que foi? Não posso dizer a verdade? Como chegaremos ao final desse dia assim?

- É uma pergunta que eu venho me fazendo também. - concordei.

E então ele começou a puxar assunto de verdade. Ele perguntou como eu estava me sentindo na cidade, se eu tinha estranhado alguma coisa, como foram meus primeiros dias. Ele também perguntou como foram os meus dias em Havana depois que ele foi embora. Senti com um pouco de tristeza em sua voz, e confesso que em compadeci, e que o assunto também o deixava melancólico, além de desconfortável. Ele estava meramente curioso e me manter falando era o objetivo. Resolvi cooperar. E foi natural, como sempre era principalmente naqueles dias em que ele passou no meu apartamento com nós dois jogados na cama, falando a respeito um do outro, conhecendo, provando... E eu estou divagando.

- Foi realmente complicado me organizar para viajar e eu sinto tanta falta de Havana que chega a doer. Mas é por uma boa causa. Eu sempre voltarei para lá.

Cerca de duas horas depois, estávamos atravessando uma ponte e chegando ao litoral. Ali, percebi que não tinha neve, mas continuava frio. E mesmo assim, tinha pessoas passeando pelas calçados ao redor da praia, acompanhando o quebrar das ondas. A vista era realmente exuberante. Um sorriso brotou no meu rosto enquanto eu acompanhava tudo ao meu redor. Ele desligou o rádio e ficamos novamente no silêncio.

- Isso é realmente... Surpreendente. - falei enquanto abaixava um pouco o vidro e deixava o vento bater no meu rosto.

Tirei o gorro da cabeça e logo meus cabelos estavam voando em todas as direções. Por mais meia hora ele seguiu dirigindo, passamos por um vilarejo e então contornamos a mesma por uma estrada que tinha poucas casas. E as que estavam por ali eram poucas. Pelo o que eu conseguia ver, o fundo de todas tinha como quintal a praia e como vista o mar. Deus, era deslumbrante.

- Isso é magnífico! - falei, virando-me pra ele enquanto fechava o vidro e esfrega as mãos no rosto.

- Que bom que está gostando. - ele respondeu, com mais um sorriso sincero. Hoje ele era todo sorrisos. De todas as formas que eu pudesse imaginar. – Pensei que o clima te incomodaria um pouco. Venta muito em NY.

Andamos mais um pouco até ele estacionar de frente com uma das casinhas. Desligando o carro, ele me convidou a sair.

- Bem, é aqui que vamos passar o dia de hoje. - ele disse apontando. - É a minha cabana, eu comentei a respeito dela com você em uma das cartas, lembra-se?

- Sim, - ohhh, que coisa linda! - eu me lembro.

E então percebi em seguida que aquilo deu a ele a confirmação de que eu lera sim suas cartas. Edward deve ter considerado a informação preciosa, mas felizmente ele não comentou.

- Então, terminei a reforma que ela estava precisando e achei que você gostaria de conhecê-la e fugir um pouco da neve que está na grande cidade. – ele completou abrindo o pequeno portão de madeira pintado de creme.

O local tinha um pequeno jardim na frente, uma entrada limpa e sem grandes obstáculos. A porta era de uma madeira escuro e grossa, que contrastava com a cor azul claro das paredes. Quando ele abriu, o local era espaçoso e tinha cheiro de mar. Era aconchegante, com uma lareira na parede esquerda, uma porta de vidro de ponta a ponta na parede oposta, que dava direto para mar. Dando uma volta na sala eu conseguia ver uma pequena e confortável cozinha, tinha um corredor com duas portas de cada lado.

- Ficaremos aqui hoje e no final do dia iremos embora. - Ele entrou na casa. - Vou colocar sua bolsa no quarto, se quiser me acompanhar, señorita, sígame, por favor.

Ele me acomodou no segundo quarto do lado esquerdo. Era lindo, em tons de vermelho que era suavizado pelos móveis e paredes em tons de creme. Tinha uma cama de casal de aparecia fofa, uma cadeira e uma poltrona.

- Edward, como você encontrou esse lugar? É esplendido! Esse barulho do vento, o som do mar, essa vista! - falei observando pela janela enquanto um homem passeava com seu cão pela areia da praia.

- Que ótimo que você gostou. - ele falou se aproximando de mim. - Eu o reformei pensando em você. Em cada detalhe de você. - ele completou, sussurrando no meu ouvido.


Eu me arrepiei. 


POV EDWARD

Eu deixei Bella no quarto para que pudesse ficar a vontade e retornei ao carro para retirar as minhas roupas e algumas coisas que tinha levado. Enquanto colocava o que era perecível dentro da geladeira, escutei os passos de Bella pela cabana e não pude conter meu sorriso.

Ela tinha adorado o lugar e aquilo não poderia ter me deixado mais feliz. Quando segui para a sala de estar, observei pela parede de vidro que ela estava na varanda de frente para o mar. Fui até o som e procurei por uma estação de rádio que estivesse transmitindo algo agradável.

- Edward! – Bella gritou meu nome com um sorriso na voz.

Eu olhei por cima do ombro e vi sua expressão contente. – O que houve?

- Por que não me disse que tinha comprado um cachorro?

- Eu não tenho cachorro.

Ela franziu o cenho, virou o rosto e apontou para sua frente. – Então de quem é este? 

Receoso, eu caminhei vagarosamente até lá e rolei a divisão de vidro para o lado para que pudesse passar. E ali, postado nas escadas como se fosse dono do lugar, estava um Husky Siberiano cinza escuro e branco com os olhos azuis mais brilhantes que eu já tinha visto na vida.

Eu pigarreei. – Bella, acho melhor você entrar.

- Que isso, Edward. Huskies siberianos são cachorros extremamente dóceis e carinhosos. Ele deve ter se perdido do dono, pobrezinho. Olhe só para ele. É lindo. Parece um lobo.

- Esse é exatamente o problema. – puxei-a pelo braço sem tirar os olhos do animal, que nos observava calmamente. – Ele é extremamente dócil até que tenha um pedaço seu na boca. Vá para dentro. Anda.

Ela cruzou os braços e deu um sorriso sarcástico. – Não me diga que está com medo dele.

- Não seja ingênua, Bella. Eu ter medo de um simples cachorro? Por favor. Só não quero que tenha um ataque e acabe invocando o bicho. Afinal, ele é imprevisível.

- Que absurdamente generoso se preocupar com minha reação, mas não esquente a cabeça. Estou perfeitamente bem. Devíamos, no entanto, leva-lo para encontrar o dono, não é?

- E é o que eu vou fazer. – apontei obviamente e me aproximei do cachorro, que entrou em posição de alerta. Faria assim que terminasse de suar. Bati o pé para ver se ele se mexia. – Anda, garoto. Vamos andando. 

Isabella comentou com um tom que pingava ironia. – Ele não é uma barata. Não vai correr se bater o pé.
Encarei-a com os olhos cerrados. – Fique quieta que eu sei o que estou fazendo.

Ela ergueu os braços. – Ok, senhor adestrador. Vejamos sua técnica.

Voltei-me ao cachorro e estendi o braço. – Olha só, vamos... Aaaaaaaaaaaaaaah!

Em um milésimo de segundo, o cachorro avançou e abocanhou a beirada de minha calça jeans, fazendo-me bater o traseiro e as costas nos degraus da escada.

Em um lugar distante que meu desespero eclipsava, escutei as gargalhadas de Isabella. – Ele vai me matar! Faça alguma coisa!

Comecei a rezar quando o cachorro, meticulosamente, depositou aquelas patas sobre mim e aproximou o focinho do meu rosto, como se estivesse avaliando sua presa. Ele farejou por um tempo e então deu uma lambida do meu queixo até a testa.

- Uuuugh.

Enquanto o cachorro me lambia como se estivesse encontrado sua parceira para a vida, Isabella se sentou no degrau onde minha cabeça repousava e suas risadas eram ainda mais evidentes.

Ela acariciou atrás das orelhas do bicho como se aprovasse o comportamento. – Acho que ele gostou de você, Edward.

E como se para comprovar a frase, o bicho deixou de lamber meu rosto e começou a se roçar contra a minha perna.

- Porra, eu não mereço isso. Saia para lá! – esquecendo-me de sentir medo daquela bola de pelos, empurrei o animal para o lado.

Como se magoado, ele foi descansar a cabeça no colo de Bella, que continuou com as carícias e adicionou murmúrios a ação. 

- Não seja tão frio, Edward. O cachorro também suas necessidades. – ela disse com uma expressão séria, mas seus olhos dançavam em diversão.

Eu nem me preocupei em responder por que estava ocupado demais arrancando pelos da roupa e da boca. Pela minha visão periférica, percebi alguém correndo em direção a casa e ergui a cabeça, vendo um homem se aproximar com uma coleira na mão.

- Desculpem! Eu o soltei da coleira por um momento e ele saiu correndo na frente! George, venha aqui!

Imediatamente o cachorro se ergueu e foi em direção ao dono, aceitando com relutância a coleira novamente em volta do pescoço.

- Péssimo garoto. – o homem ralhou, mas logo coçou o animal atrás das orelhas. – Nada de correr de mim de novo.

- Ótimo você aparecer depois que toda a diversão acabou. – reclamei azedamente.

- Eu sinto muito mesmo. Sou Liam. Se precisarem de qualquer coisa, estou há seis casas daqui. Naquela direção. – ele apontou para o lado esquerdo. – Ele não danificou nada, não é? 

Grunhi. – Se você não considerar o meu orgulho.

- Não foi nada demais, não se preocupe. – Isabella garantiu serenamente, arriscando um pouco de seu inglês. - Ele é um ótimo cachorro e muito bonito.

- Sim, ele é. Extremamente travesso, no entanto. – Liam segurou firmemente a coleira e deu um leve puxão para que George entendesse que era hora de ir. – Desculpem outra vez. Até mais ver.

Imediatamente eu retornei para dentro, mas sabia que Isabella não ia deixar barato quando me seguiu prontamente.

E ela não deixou. – Destemido, hã? Fiquei realmente impressionada.

Forcei minha mente a lembrar de que eu estava em uma espécie de condicional com ela e que xinga-la não seria aceitável. – Eu vou tomar um banho. E então saímos para tomar café.

- Sim, senhor.

Eu dei as costas e ela recomeçou a gargalhar. Praguejando para mim mesmo, apenas deixei o sorriso se formar quando estava dentro do banheiro. De certo modo havia sido sim engraçado e tinha servido para quebrar o clima chato inicial de estarmos sozinhos em um local após tanto tempo. Além de que, era sempre bom ouvir minha estrela rir. Mesmo que eu fosse a piada.

***

O episódio com o cachorro rendeu durante todo o café-da-manhã, mas quando retornamos ao carro Isabella já tinha se controlado novamente. Suspeitei que aquilo tivesse a ver com o fato de que ela devia estar preocupada porque ficaríamos sozinhos outra vez.

Já tendo pensado exatamente naquela possibilidade, comentei. – Eu queria levar você a um lugar depois que voltarmos à cabana. Se estiver disposta. Ou então poderíamos descansar um pouco da viagem e ir mais tarde.

Ela perdeu o olhar distraído que tinha no rosto e me encarou com aparente curiosidade. – Que lugar é esse?

Eu sorri. – Você verá. Não é por querer fazer mistério, mas porque foi algo que encontrei sem estar procurando. Quero que tenha a mesma impressão.

- Hum. – ela balbuciou com uma sobrancelha arqueada. – Tudo bem. Mas poderíamos mesmo ir mais tarde? Queria esticar o corpo um pouco. Certas pessoas me fizeram começar o dia antes do galo cantar, entende.

- Certo, sem problemas. Não quero você caindo de sono pelo caminho. – provoquei.

- Quanta gentileza.

Eu sorri, mas deixei que ela tivesse a última palavra. Chegamos à cabana após mais cinco minutos.

Vendo-a se espreguiçar contra o banco do carro, não pude me conter. – Quer que eu a carregue para dentro?

Ela me lançou um olhar enviesado. – Tem certeza que já tem força para isso? Pensei ter visto George te nocauteando belamente mais cedo.

Como sempre minha estrela com suas respostas afiadas. Arriscando, segurei sua mão antes que ela pudesse abrir a porta e olhei em seus olhos. – Eu senti falta disso, Bella. Senti falta da gente.

- Louco seria você de não ter sentido.

Foi um momento apenas, mas sua mão apertou a minha brevemente antes de ela sorrir e sair do carro.

***

- Você tinha que ter pegado outro casaco. – eu disse enquanto vinha Bella se encolher dentro de seu paletó e lutar para não ser levada pelo vento. – Não seja tão teimosa, Bells. Aceite logo o meu. Estou mais acostumado ao clima do que você.

- Já disse que estou bem.

- Talvez fosse melhor se voltássemos. Não quero que pegue uma gripe. – insisti vendo seu nariz tingido de vermelho e seus lábios trêmulos. – Ou uma pneumonia. Anda, vamos voltar. Isso foi uma péssima ideia.

- Claro que não vamos voltar. Depois de andarmos tudo isso? Faz-me rir. Pare de se preocupar a toa.

Suspirei descontente. – É mesmo uma mula teimosa.

- Como é? – ela cerrou os olhos para mim.

- O que faço se cair doente aí?

- Ora, você terá a chance de me carregar em seus braços fortes. – ela respondeu com um sorriso irônico. – E chega de conversa. Onde é esse tal lugar que nunca chega? Começo a achar que você está tentando me sequestrar, levando-me para um calabouço debaixo dessa areia.

- Você está lendo muitos livros de ficção, minh... Bella. – emendei, mas sabia que ela tinha entendido o que eu queria dizer. Buscando uma saída, apontei para frente. – Ali, vê aquelas pedras no fim da praia?

- O que tem? – havia um toque de desconfiança em sua voz que me pareceu divertido.

- Lá está a surpresa.

Passei um braço pela sua cintura e a joguei sobre meu ombro, enquanto ela gritava em surpresa. Fiz o melhor que pude para correr considerando que Bella se debatia.

- Edward Masen, acho melhor você me colocar no chão imediatamente. Não estou achando graça.

Tentei conter a risada sem sucesso. Era hilário como ela tentava manter a compostura e a voz fria quando estava pendurada no meu ombro como um saco de batatas.

Apesar de seus protestos e reclamações, recoloquei-a no chão somente quando estávamos de frente às pedras. As ondas quebravam silenciosamente sob nossos pés.

- Prontinho. Poupou um belo pedaço de caminhada, não foi?

- Não faça mais essas coisas! – ela exigiu e tentou ao mesmo tempo segurar o cabelo que batia contra seu rosto por estar de costas para a corrente de vento. Sorri. – Não estou brincando, Edward! Sua atitude de homem das cavernas é totalmente dispensável!

- Só queria ajudar.

- Ah, claro. Mas que droga! – ela reclamou quando uma mecha de cabelo entrou em sua boca. Então desistiu e gargalhou. – Estou ridícula.

- Impossível, Bells.

Eu queria tocar seu rosto. Ao invés disso, ofereci minha mão para guia-la. Pedi para que tirasse os sapatos e subisse as barras da calça e após um momento de hesitação, ela o fez. Vagarosamente, ajudei-a a subir em uma pedra e imediatamente pôde-se ter uma visão da extensão de pedras que seguia junto ao mar e o pequeno lago de caldas quentes em meio a elas.

- Meu Deus, é lindo!    

- É mais lindo de perto.

Ela me encarou por cima do ombro em nervosismo. – Você não está planejando ir até lá, não é?

- Bells, a ideia é entrar no lago. Dá para ver a fumaça daqui, não percebe? Não me diga que não é a ideia mais tentadora nesse frio!

- Nós vamos morrer. Se escorregarmos...

- É só termos cuidado. Além do mais, ainda estamos no raso. Onde está seu espírito aventureiro? 

- Seus passeios são sempre inusitados. Trilhas no meio da noite, caminhada sobre pedras escorregadias... Qual será a próxima sugestão maluca?

- Bung Jump. – dei uma piscadela.

Ela respirou bem fundo. – Eu devo estar tão maluca quanto você. Espero que valha à pena.

- E vale, Bella. Se servir de consolo, da primeira vez que vim, estava sozinho. Muito mais arriscado.

- E como, em nome de Deus, isso serve de consolo?

- Ué, você não estará sozinha. E eu já tenho a experiência prévia para possíveis eventualidades.

- Oh Deus. – ela levantou os olhos para os céus. – Proteja-me neste momento. E se algo acontecer a mim, permita-me um minuto de vantagem para mata-lo primeiro. Amém.

***

- Nunca mais irei embora daqui. Nunca. Mais. – Isabella murmurou em perfeita felicidade enquanto movimentava os pés debaixo da água. – Isso é o paraíso.

Eu bem podia concordar. Mas embora também estivesse com os pés dentro da água, meu paraíso de nada tinha a ver com aquilo. E de tudo tinha a ver com ela e com a expressão em seu rosto.

- Eu disse que valeria à pena.

Ela suspirou em contentamento. – E você estava certo. Melhor do que isso, só se eu pudesse entrar totalmente na água. Bem que poderíamos ter trazido uma toalha!

- Isso sim é chamariz para pneumonia, Bella.

- Ah, não seja estraga-prazeres. – ela balançou uma mão em minha direção e encarou a água em total adoração. – Acho que estou apaixonada. Bem que eles podiam disponibilizar uma assim no meu quarto no hotel. Afinal, como uma poça de águas quentes veio parar aqui no meio destas pedras? Estamos na beira do oceano.

- Esse é o mistério, Bells. É como uma espécie de milagre.

- Ou destino. – ela sugeriu com satisfação. – O destino a colocou aqui para que nos encontrássemos e ela me fizesse muito, muito feliz.

- Eu não mereço algum crédito? O mensageiro nunca ganha nada.

- Oh, pobrezinho. – ela se inclinou sobre mim e deu um beijo em minha bochecha.

Era totalmente idiota: eu já tinha amado aquele corpo de diversas formas, mas apenas o toque daqueles lábios fazia minha cabeça girar como um garoto apaixonado pela primeira vez.

- Obrigada, Edward.

- De nada. – eu tinha a ligeira impressão de que minha voz não havia saído como deveria.

E o sorriso zombeteiro de Bella me confirmou aquilo. – Sabe no que eu estava pensando?

- Hum?

- No que você fará para me alimentar. Não está esperando que eu cozinhe, não é? E eu vi você colocando coisas na geladeira quando chegamos, sei que não sairemos para comer.

- De fato.

- Então, o que será? Eu já estou com fome, sabe.

Seu sorriso debochado me fazia querer esgana-la, beija-la e rir. Não exatamente naquela ordem.

- Será a única coisa que eu posso garantir fazer e não estragar, Bella.

- Droga. Já vi que ficarei com fome.

Tudo bem. Talvez o primeiro ímpeto fosse mesmo esgana-la.

***

Isabella se sentou na pequena mesa que ocupava o centro da cozinha. Mesmo estando de costas para ela, sabia que me observava com o ainda presente sorriso zombeteiro. Um solitário filete de suor escorreu pelas minhas costas em nervosismo e eu resisti à vontade de pedi-la para olhar para outro lugar.

Era difícil se concentrar daquele jeito e eu precisava evitar um erro. Está certo que era apenas um almoço informal, mas queria que tudo corresse bem. Afinal, ainda tinha que convencer Bella a passar o final de semana.

Escutei seu longo suspiro e logo sua voz, que já não continha o tom de sarcasmo tão presente. – Edward, é sério. Você não precisa fazer tudo isso sozinho. Posso ajudar.

- São apenas sanduíches de frango. – respondi dando de ombros.

Depois de um momento, ela veio parar ao meu lado e observou minhas mãos que, mais do que nunca, resolveram se atrapalhar em demasia. – Por que não comprou logo? Pouparia o trabalho.

- Porque eu queria preparar.

Eu não simplesmente queria preparar, queria fazer aquilo para ela. Isabella entendeu o que estava implícito e eu esperei que fizesse alguma piada. Ela não abriu a boca. Senti que, diferente de mais cedo quando deixei escapar que sentia saudades, desta vez ela ficou desconfortável com minha resposta. Talvez porque eu já houvesse dito antes que sentira saudades e aquilo não era, de nenhuma maneira, uma surpresa.

Descontente com o silêncio desconfortável, quis retirar o que disse. Quis insistir que era apenas um sanduíche, nada demais naquilo. Mas havia. Tudo relacionado a ela tinha um grau significativo de importância para mim.

- Bella. Eu vi que trouxe roupas como eu havia sugerido. – murmurei buscando desesperadamente pelo clima agradável novamente. – Decidiu passar o fim de semana?

Ela hesitou e era perceptível que o assunto em pauta continuava não sendo um de sua preferência. – Bem, eu... Ainda não sei.

- Eu gostaria que ficasse. – enquanto falava, fiz questão de manter minha atenção voltada a minha tarefa. Era provável que o contato visual fosse intimida-la. – Eu estava pensando... Poderíamos fazer uma fogueira hoje à noite, levar alguns cobertores lá para fora. Algo me diz que a noite será muito bonita. Talvez comprar marshmallows mais tarde para assar no fogo.

Ao arriscar uma olhadela em sua direção, descobri que ela me encarava. – Tudo bem, eu ficarei. Acho que pode ser... Divertido.

- Ótimo! – em meu entusiasmo, esqueci-me de controlar o sorriso e pude sentir as bochechas doendo com o excesso. – E eu já acabei aqui. Podemos comer? Eu trouxe alguns vinhos.

- Você não me ouvirá negar alimento em minhas condições famintas atuais.

***

- Homens são mesmo impressionantes. – Isabella balançou a cabeça pelo que parecia ser a décima vez e retirou um item do carrinho que eu empurrava, observando-o. – Você viu o preço dessa geleia, Edward? Cinquenta centavos mais cara do que aquela outra ali. Não vê que isso é um truque para desavisados como você?

- Que diferença faz, Bella?

- Toda. Você está sendo roubado. – ela apontou como se fosse óbvio e substituiu uma geleia pela outra. – Esta marca é tão boa quanto à outra, você precisa estar atento. Dinheiro não dá em árvores no quintal. E esse repelente? Por Deus, ele é tão eficaz que poderia ser água com açúcar. Nunca sofreu de mordidas de mosquito para saber qual é o melhor?

- Sim. – murmurei entre dentes quando vi que uma mulher no mesmo corredor ria descaradamente de nosso diálogo. – Então troque por outro e pronto. Vamos logo. Por que estamos levando tudo isso, afinal? Íamos comprar só marshmallows.

- Porque são coisas necessárias. – ela murmurou distraidamente enquanto passava os olhos pelo carrinho a fim de encontrar mais itens a criticar. – O que falta?

- Paciência.

- Como?

Pigarreei. – Nada, Bella. Nada, eu disse. Já pegamos tudo de importante.

- Eu ouvi bem o que disse. Só estou tentando ajudar a ser um consumidor consciente. Mas já que eu sou tão entediante assim, você quem se vire então.

- Bells. – praguejei quando ela saiu andando sem me dar bola e mais quando a mulher enxerida nos seguiu com o olhar, como se fôssemos uma novela muito interessante. – Bella, não seja assim. Foi só um comentário engraçado.

- Morri de rir.

- Desculpe. Eu só não vejo o propósito em você tentar me ensinar. Há certas coisas que um homem é incapaz de aprender. Está em nosso DNA.

- Isso é verdade. – ela alfinetou sem dó enquanto examinava chocolates nas prateleiras. – Como abaixar a droga da tampa do vaso. Quando estava na minha casa, nunca lembrava. E aqui não é diferente. Algo tão ridiculamente simples.

- Bella, vamos terminar isso depois, por favor. As pessoas estão passando. – olhei ao redor incomodado, ciente de que um homem que passou por nós acenou com a cabeça para mim como se entendesse o que eu passava. – Parecemos um casal lavando a roupa suja em público. Ainda mais você com esse papo de tampa do vaso levantada. Por Deus, não fico pensando em abaixar a tampa quando vou mijar!

Ela arqueou uma sobrancelha. Mais pessoas passaram e nos encararam, divertidas. – Qual a dificuldade, não compreendo. E chega desse assunto. Cansei-me dele.

Claro que quando ela não queria mais conversar, então o mundo deveria concordar com sua decisão. Como se fosse apenas a dela que importasse. E o pior daquilo era que eu realmente acatei e calei a boca. Claro. Por acaso tinha uma afeição por meus dentes.

Ela saiu andando na frente de novo, como se liderasse o caminho e estivesse confiante de que eu a seguiria. Certa outra vez. Parecíamos mesmo um casal, constatei. E por mais que tivesse um acordo com ela, um acordo de amizade, cheguei a conclusão de que não havia nada que pudesse me distrair daquele singelo fio de esperança.

***

- Isso é bom. – Isabella murmurou, o ar quente deixando seus lábios com as palavras. Enrolando-se mais no cobertor, ela deu um sorriso rápido e voltou a olhar para o céu. – E eu achando que você tinha ficado maluco de vez com a ideia de contar estrelas com o frio que está fazendo.

- A fogueira é mais eficaz do que a lareira, eu acredito. E como eu imaginava, está uma noite muito bonita. Como desperdiçar isso? Aqui, pegue outro.

Vendo que não estava quente o suficiente, coloquei outro cobertor em volta dela, tendo o cuidado de cobrir até seu queixo como ela fazia com o outro. Esfreguei seus braços por cima de todas as camadas de tecido e nossos olhos se encontraram. Permaneceram.

- Se estiver com muito frio, fale e nós entraremos, tudo bem?

Ela concordou com a cabeça lentamente, seu olhar ainda prendendo o meu de um modo que, eu ousava pensar, violava os termos de nosso acordo de amizade. Antes de agir estupidamente sobre aquilo, virei-me para a fogueira para assar outro marshmallow.

Já devia passar das onze e muitas das cabanas à beira da praia já estavam escuras. O faiscar das chamas acesas foi o único som durante muito tempo.

- Isabella. Posso te fazer uma pergunta?

Pela sua expressão, percebi que ela achava que eu faria uma pergunta indiscreta ainda que tenha assentido com a cabeça. Como, por exemplo, algo sobre Jacob. Eu queria perguntar sobre ele, mas sinceramente minha curiosidade não se sobressaía ao receio da resposta. E por acaso havia algo que eu queria saber ainda mais.

- Você é feliz?

Ela demorou a responder e eu não encarei por um universo de motivos. Não queria pressiona-la, não queria influenciar sua resposta, não queria constatar em seu olhar se me diria ou não a verdade. Desejei que a resposta fosse afirmativa e que ela me dissesse que nunca em sua vida estivera mais feliz. Que tudo agora dava certo para ela. Que eu não havia estragado sua vida. E ao mesmo tempo desejei todo o contrário, que confessasse sua incapacidade de ser feliz sem mim. Que confessasse que eu não era o único a sentir aquilo.  

Ela não respondeu nem uma coisa nem outra. E de certo modo fiquei feliz porque acertar em qualquer uma das conclusões faria com que eu me sentisse mesquinho quando não me encontrasse completamente feliz. E de certo modo fiquei arrasado por que... Por que. Isso bastava.

- Eu tento ser, Edward. Não tentamos nós todos?

Forcei um sorriso tão doloroso que me perguntei por um momento se a fogueira não tinha se acendido em meus lábios. – Acho que sim.

De novo, aquele jeito de olhar que me instigava e confundia ao mesmo tempo. Era um desejo estranho de saber o que ela pensava e ao mesmo tempo de se esconder para nunca descobrir. Aquele olhar dela me fazia, mais do que tudo, disposto e inclinado a quebrar o acordo. Mas eu não poderia fazer aquilo. Ou então não me restaria nada. E qualquer parte de Bella era melhor do que parte nenhuma de Bella. Havia tido cinco meses de experiência própria.

Ela moveu o braço para fora da proteção dos cobertores e estendeu a mão para mim. Segurei sua mão, lamentando o fato das luvas me impedirem de senti-la, e cheguei para mais perto dela. Em um gesto automático que dispensava explicações, coloquei o terceiro cobertor que me cobria sobre nós dois e ela deu espaço para que os outros também me cobrissem. Quando ela descansou a cabeça em meu ombro, tomei a liberdade de passar um braço em volta de seu corpo.

O marshmallow que eu tinha colocado para assar começou a queimar porque tinha me esquecido dele, mas nenhum de nós se mexeu. Arriscava a dizer que não nos importávamos. O suspiro de Bella foi relaxado e seus olhos se voltaram para cima novamente. Eu continuei olhando para o nada com o cheiro dos cabelos dela me preenchendo os sentidos.

Eu tinha meu céu bem ali.

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