Oiiiiiiiiiiie!!

voltei, voltei, voltei!! Gostaram do capítulo anterior? Preparados para esse novo? Eu nem vou ficar de enrolação por que esse capítulo tem a primeira apresentação deles e é lindo! *--------------------* Vocês também vão ter um POV do Edward cheio de surpresas. Corram para ler!

Beijos,

CAPÍTULO 23

POV ISABELLA

Duas semanas se passaram e a cidade gritava por mim. Eu e Jake combinamos que a principio treinaríamos aos sábados durante meio período e os domingos seriam livres. Primeiro por que estávamos ensaiando integralmente durante a semana. E segundo por que as apresentações oficiais seriam nos finais de semana. Até segunda ordem.

E então era sábado à tarde e eu estava nervosa. Meus ensaios com Jake já tinham acabado. Ficamos de 8hs até 14hs em nossa sala, ensaiando Tango até estarmos arfando e com os rostos corados. Quando nosso período acabou, voltei para o meu quarto. Ali eu liguei para tia Doroth. Cuba estava a quilômetros de distância de mim. Eu sentia falta de casa, de sentir o calor e as águas turquesa de Havana.

Mas nada, nada conseguia substituir a sensação de abandono que eu sentia todas as vezes que pensava no meu ateliê. Minha tia, claro, saudou-me com alegria. Perguntou como estavam as coisas em Nova York e queria saber tudo com muitos detalhes. Eu pacientemente e com um sorriso no rosto lhe contei tudo.

Foi importante que eu frisasse a importância de Jake neste momento comigo. E eu até conseguia vê-la com lágrimas nos olhos de orgulho e saudade. Depois de um questionário enorme a respeito de como estava meu ateliê e com a voz da minha querida tia me tranquilizando a respeito do funcionamento, desliguei o telefone e fui tomar um banho.

Com a banheira cheia até a borda, eu afundava e ficava ali por alguns segundos antes de submergir. A aproximação da primeira apresentação estava me deixando com os nervos a flor da pele. Mesmo com a possibilidade de ser eliminada – por que afinal, eu estava em um concurso mundial de dança! -, a sensação já era bastante ruim apenas em pensamento.

Fiquei pensando nos meus pais, na minha trajetória na musica e até onde eu tinha chegado através dela. Pensei na parte emocional de mim que era um caos total e me perguntei por que eu nunca pensei em buscar tratamento para os meus pesadelos tão reais com os meus pais.

Talvez eu tenha a impressão que cortaria para sempre o laço que eu tenho com eles. Talvez seja paranoica. Talvez eu seja masoquista e me apeguei a essa única linha de sentimentos por que, por um momento, fico mais perto deles. O que importava era que os pesadelos não tinham acontecido desde que eu estava ali. E eu não sabia se isso era bom ou não.

Com a pele enrugada e coberta com alguma espuma, saí da banheira e lavei meu cabelo adequadamente no chuveiro. Segui para o quarto e fiz todo o meu ritual pós-banho, já imaginando que a incrível padaria que tinha no final da avenida seria de muita serventia para a fome que estava sentindo.


Teria que pegar um táxi, claro. Mas qual era o problema nisso quando todas aquelas vitrines cheias de comidas deliciosas e tão bem feitinhas que dava dó de comer estariam lá, esperando-me devorá-las?

- Você está extremamente faminta e gulosa para alguém que deveria estar em dieta, Bella. – falei para mim mesma. 

Enquanto terminava de me arrumar, o telefone tocou. Tão acostumada com as ligações das meninas e de Jake, atendi prontamente.

- Alô?
- Bella? – meu coração disparou. Edward. – Oi, é o... Edward. – ele completou com a voz hesitante.
- Olá...

Como era doce aquela voz. Com um toque sensual.

- Tudo bem?

- Tudo ótimo e você?

- Não precisamos dessas formalidades, certo?

- Creio que estávamos apenas sendo educados. – retruquei enquanto ia até em frente ao espelho e checava meu reflexo.

Olhos destacados e bochechas vermelhas com os cabelos dançando ao redor.

- Hum... Enfim. Na verdade, eu liguei mesmo para saber como estão os treinos, você, sua estada.

- Mesmo? – perguntei surpresa e então me recompus. – Bem, os treinos estão ótimos. Eu e Jake estamos ensaiando todos os dias. Hoje já fizemos a nossa parte. Descanso depois das duas. Eu estou muito bem. – repeti mais uma vez o meu estado.

Patético.

- Você está de folga agora? – ele perguntou rapidamente.

Por que eu conseguia imaginar tão bem a cena?

- Hum... Sim. Mas eu já estou saindo. – respondi.

- E onde você pensa em ir? Já conheceu Nova York?

- Bem, eu e as meninas fomos a alguns lugares, mas nada muito distante daqui. Não conheci ainda nenhum dos lugares famosos, mas é por que simplesmente não posso me desviar muito do foco principal.

- Eu poderia levá-la para conhecer os lugares mais bacanas e famosos. - ele disse de um modo animado, com a voz cativante e persuasiva.

Respirei fundo por que eu sabia o que ele estava fazendo. Mostrar-me a cidade encantadora era uma forma de estar perto de mim e de relembrar os motivos pelas quais levaram a me apaixonar por ele. E eu não sei se ainda estou preparada para isso. Com certeza, eu não estou. Mantê-lo distante seria algo tão estressante e exaustivo, que só de pensar em como ele era determinado, eu ficava cansava por ambos.

- Edward, eu acho que é... Cedo demais para isso. – afirmei.

A linha ficou muda por alguns segundos.

- Tudo bem. Eu entendo. – ele murmurou com aparente neutralidade, mas a animação tinha sumido de seu tom.

Um silêncio estranho se estabeleceu e pigarreando, ele continuou. – Ah... Eu não vou tomar mais o seu tempo. Aproveite seu passeio. Até depois, Bells.

- Até. – repeti meio sem jeito.

Ele hesitou na linha, como se quisesse dizer algo a mais, e então desligou.

Quando terminei de me arrumar, estava em busca da minha bolsa e pronta para partir, meu telefone tocou novamente. Receosa, demorei alguns segundos para atender pensando ser o Edward insistindo. Mas atendi.
- Oie Bellitita! – Alice gritou e no fundo ouvi a voz da Rose berrando: PÁRA DE GRITAR, ALICE! – Viu como sua amiga é extremamente educada? – ela me perguntou alegremente. – Estamos passando aí! Vamos sair!

- Hãm... OK. – respondi com um sorriso. Como elas liam a minha mente assim? – Eu já estava com essa ideia em mente. Estou prontinha, encontro com vocês no saguão. – e desliguei ante as risadas e a confirmação de Alice para Rose que estava esperando – as.

Parecia loucura, mas a minha vontade de comer waffles estava ultrapassando os limites imaginários dos meus instintos. Desci para o saguão do hotel enquanto um funcionário chamava o táxi. Nossa barreira de comunicação estava sendo suprida de diversas maneiras, que ia do meu péssimo inglês a desenhos.

Quando o elevador abriu as portas, vi minhas amigas se dirigindo a mim muito felizes, os rostos bem maquiados e as roupas impecáveis.

- Onde iremos? – Rose perguntou enquanto arrumava o cabelo ao redor do rosto.

- Pelo amor de Deus, irei a qualquer lugar com vocês, desde que antes eu possa comer waffles!- implorei com as mãos juntas na frente do peito. – Eu necessito, eu estou salivando, desejando, querendo, literalmente morrendo por um. – fiz a minha melhor cena, já que se eu não fosse convincente, elas me arrastariam para todos os lugares e eu não comeria meu tão desejado waffle. Ou waffles.

- Tuuuuudo bem – Rose disse com as mãos levantadas como se estivesse com medo do meu desespero.

- Tá, tá, tá. Waffles, cerveja, chocolate quente, tequila! O que você desde que eu saia desse maldito hotel! Vamos! – e saiu arrastando eu a Rose.

Fomos para a escadaria do hotel e ficamos esperando. Quando o táxi parou, nos enfiamos no banco traseiro.

- Onde deseja ir, senhoritas? – o taxista perguntou em um inglês perfeito, se dirigindo a mim.

Vendo-me mais uma vez nessa barreira de idiomas, tinha ensaiado e pesquisado rapidamente antes de descer como eu diria que queria ir a uma padaria, onde eu imaginava que teria muitos waffles deliciosos onde eu poderia me esbaldar.

- Gostaríamos de ir ao melhor lugar que eu possa comer waffles que você conheça. – falei a frase devagar e com o meu sotaque carregado hispânico, enquanto lia as palavras desconhecidas em um pedaço de papel e dava meu melhor sorriso para o motorista.

Ele me olhou através do retrovisor e retribuiu o sorriso, acelerando o carro pela grande avenida.

Rose e Alice começaram logo a tagarelar, enquanto ríamos dentro do táxi, deixando o motorista extasiado com o som das nossas risadas.

***

Deus, eu estava em uma padaria mesmo?  O lugar mais parecia um restaurante de luxo! Com os olhos brilhando, agradeci o motorista enquanto as meninas faziam o mesmo, com um americano muito melhor que o meu. Olhei para o taxímetro e entreguei para ele as notas que pagavam pela corrida.

Empurramos a porta do estabelecimento, uma ao lado da outra, as bochechas vermelhas quando o ar quente e de coisas saborosas invadiu a minha cabeça. Com o atordoamento que eu desejava, escolhemos uma mesa perto da janela, onde poderíamos ver as pessoas passando na rua.

- Rose, por favor! Peça um waffle banhado em muito chocolate ao leite e com castanhas para mim! – implorei, pousando as mãos em cima da mesa. – Peça logo, vai! Eu preciso muito, muito, muito mesmo! Se eu ainda tiver que desenhar para ele o meu pedido, irei sucumbir bem em cima dessa mesa de tanto desejo!
- Meu Deus, menina! O que você tem? – ela perguntou com uma risada. – Tudo bem, tudo bem.

Quando o garçom se aproximou, ela falou no seu inglês bem melhor o meu pedido, o dela (muffins com chocolate quente) e o da Alice (torta de brownie). Ele se retirou muito educadamente, dizendo que traria nossos pedidos em seguida.

- Então... Como estamos? – perguntei. – Aproveitando muito as férias? – perguntei com um sorriso.

Alice e Rose entraram na minha e também riram.

- Claro, pra quê está em Nova York fazendo pesquisas a respeito de dança, figurino e música? Sem contar nos ensaios que estou fazendo com certa moça? Está tudo perfeito!

Nossa conversa continuou, que variou desde uma loja interessante que as meninas tinham visto aos dançarinos atraentes dos outros países. Meu riso fluía com facilidade e era tão gostoso não me sentir tão pressionada depois de vários dias de treinos constantes e intensos.

- E como estamos com Edward? – perguntou Alice e boca cheia, enquanto mordia outro pedaço da torta de brownie.

- O que tem ele? – disfarcei.

- Diga-me você. – ela respondeu com um sorriso sacana.

- Mas se deseja saber a respeito dele, creio que terá que perguntar a ele. – devolvi. – Eu não sei de nada, afinal, não mantenho contato com ele.

- Hum... Pensei que você estivesse atendendo telefonemas dele e não tivesse contado nada a nós duas. Não é mesmo, Rose? – ela virou-se para a loira, com a mão apoiada no queixo, que confirmou enquanto seus olhos avaliavam meu rosto. – Por que assim, sem querer julgar já que eu imagino que você contaria tudo a mim e a Rose, mas o Jasper tinha comentado que o Edward estava animado estes últimos dias e que tinha falado por cima a respeito de alguns telefones para certa pessoa. Mas... Já que você não mantém contato com ele, duvido que estejam falando de você.

- Hãm... Ok. Eu falei com ele. – confessei. – Mas eu ia contar tudo a vocês, juro! – já fui me desculpando, por que conhecendo as amigas que eu tinha, principalmente Alice, já estava vendo a confusão que eu poderia acarretar. – Mas foi coisa rápida. Ele está pressionando um pouco, na verdade. – falei com o cenho franzindo, pensando nas ligações e nas propostas para sair. – Não sei se quero isso agora.

- Por que não? – dessa vez foi Rose quem perguntou.

- Principalmente por que eu estou aqui por causa do Concurso. E eu tenho receio que ele me... hãm... distraia de alguma forma. E eu não queria ser distraída. Quero cumprir meu papel aqui, pensando que eu me dediquei o máximo possível. Sei que estou me tornando repetitiva com esse discurso, mas é exatamente isso o que eu sinto.

- Posso dizer realmente o que eu sinto a respeito dessa confusão toda de vocês dois, Bella? – Rose falou, afastando os pratos de perto de si e cruzando as mãos em cima da mesa, me encarando daquela forma intensa que só ela conseguia. – Que é o momento para vocês se resolverem. Você sempre se manteve concentrada no que queria, eu tenho certeza que saberá lidar com o que quer que aconteça aqui. É o concurso? Sim. Só que é mais do que isso: é a sua oportunidade de resolver de vez essa situação que já está se arrastando por meses. Saia, tente esquecer o que aconteceu. Pelo menos dê uma chance para ele se redimir.

- Jasper está comentando muito a respeito desde que chegamos. Diz que o Edward mudou totalmente. Eu acho que você poderia dar uma chance, Bella. Não vai custar muito. Sofrimento a mais ou a menos, você já sofreu mesmo e já está vacinada. – completou com displicência. – É o momento. Concordo com Rose. Se você perceber que podem ser amigos, mantenha a amizade. Se você não quiser nem isso, deixe claro. E se for para rolar algo a mais, deixe que aconteça sem peso na consciência. É totalmente compreensível. – completou com uma risadinha.

E com os pensamentos voando de um lado para o outro, terminei de comer meu waffles pensando que realmente estava na hora de resolver meus problemas com o Sr. Masen.

***

Com a aproximação da primeira apresentação do concurso, tudo se desligou de minha mente. Eu tinha cabeça apenas para ensaiar com Jacob, tudo que já vínhamos treinando e reajustar algum passo desconexo para que no fim realizássemos a apresentação de nossas vidas.

Claro que no meio de todo o treino exaustivo eu tive as minhas crises de choro, ansiedade e tristeza. Duas vezes conversei a respeito com Jake, que me abraçou e me deu palavras de conforto. Palavras que eu ouvia desde a infância e que sempre fizeram com que eu me sentisse muito bem. Funcionou. Com um sorriso nos lábios e a vontade de vencer, voltamos a ensaiar com mais afinco do que nunca.

Na outra vez eu estava no quarto e sozinha. Tinha conversado com as meninas também e estava tranqüila até entrar ali e me sentir extremamente solitária. E se eu não conseguisse? Como eu vim parar em Nova York para um concurso de dança? Por que eu queria tanto provar que eu conseguiria se não tinha com quem compartilhar esses momentos de alegria? Como meus pais se sentiriam se soubesse que eu abandonei tudo em Havana apenas para participar de um concurso de dança?

Bem, não era apenas um concurso de dança. Era o concurso de dança que deixaria qualquer pai orgulhoso, minha consciência me recriminou. Mas nem isso foi capaz de evitar as lágrimas que saltaram dos meus olhos e não impediu que eu me deitasse em posição fetal na cama, chorando compulsivamente e soluçando, querendo ficar sozinha e ao mesmo tempo que alguém estivesse ali comigo, me abraçando e dizendo daquele modo sarcástico que eu estava sendo louca se penso que sair de Havana para ganhar um concurso era apenas uma das minhas vontades tolas. Meus sentimentos estavam conflitantes e diversas vezes, durante o meu período de agitação, cogitei ligar para a ilusão. Mas o meu orgulho dizia para que eu esperasse, por que se fosse para nos entender realmente, aquela hora iria chegar. E quando foi o momento certo, meus soluços pararam e o sono acalmou minha angústia.

POV EDWARD

Nova Iorque estava mais cheia, movimentada e reluzente do que de costume. Faltava apenas uma semana para o natal e parecia, a meu ver, que a cidade nunca tinha estado tão abarrotada como naquele ano.

Eu estava ficando louco sem ter nada para fazer. Há três dias o escritório tinha entrado em recesso para as festas e embora eu tenha continuado a ir trabalhar, parecia que todas as pessoas resolveram dar uma pausa nos processos e casos por causa do feriado.

Era enlouquecedor.

A única boa notícia na coisa toda era que tinha chegado o dia da primeira eliminatória do Concurso. Com minhas constantes idas até o local para espiar minha estrela, eu tinha descoberto que a partir dali as eliminatórias aconteceriam de duas em duas semanas. Claramente eu já tinha conseguido meu ingresso para todas.

Na manhã daquele dia, eu telefonei para Bella para desejar boa sorte. Ela parecia um pouco sem ar ao telefone e eu acabei passando alguns minutos tentando convencê-la de que sairia tudo bem, ela não tropeçaria e cairia de cara no chão, ou nada do tipo. Quando desliguei, ela parecia mais calma e isso me deixou contente.

Em seguida, liguei para Esme. Sem comentários sobre quanto ela exclamou no telefone com aquilo e depois de um tempo, finalmente pude explicar o motivo da ligação. Ela tinha comentado que queria ir à eliminatória e eu queria saber se ela tinha mesmo conseguido o ingresso.

Ela confirmou e combinamos de ir juntos. Sutilmente eu questionei se Carlisle também iria e ela tinha negado.

Ele não tinha acordado se sentido muito bem e ela iria com ele até o médico assim que terminasse de falar com ele.

Eu não queria admitir que estivesse preocupado, mas era bem verdade que eu cheguei até a casa deles mais cedo do que o horário combinado. A casa onde tinha morado toda a minha vida. Mesmo quando estiveram passando por problemas financeiros, eles tinham feito o impossível para não terem que sair. Eu nunca tinha imaginado que eles tivessem tanta afeição pelo lugar, mas... Algumas coisas tinham mesmo mudado.

Assim como no resto da cidade, a casa estava enfeitada com ornamentos natalinos. Engraçado que eu passava pelas lojas e prédios nova-iorquinos acesos pelas luzes de natal frequentemente, mas foi apenas me deparando com a minha antiga casa que percebi que, em todos aqueles anos, eu não havia pendurado nem um sino sequer no meu apartamento no fim do ano. E nunca nem tinha pensado em fazê-lo.

Pensando mais profundamente, enfeites e ornamentos eram para casas que eram lares. Não blocos de concreto que serviam apenas para nos abrigar.

Ao tocar a campainha, a empregada que trabalhara ali desde que eu tinha nascido foi abrir a porta. Justine arregalou tanto os olhos quando me viu que pareciam que eles iam saltar e sair correndo.  Devia mesmo ser um choque. A última vez que eu estivera ali foi quando eu saíra dali. Na época, achava que não voltaria nunca mais.

As coisas realmente mudam.

- Olá, Justine.

- Edward. Meu Deus. Fazem...

- Oito anos. – completei assentindo.

Ela permaneceu mais um tempo me encarando, aparentemente esquecendo que seria educado me deixar entrar. – Acho que é certo o que eles dizem. “O bom filho a casa torna”.

- Eu não sei quanto ao “bom”, mas sim, estou aqui. Vai me deixar entrar?

- Oh, claro! Que cabeça. – ela deu um tapa na própria testa e deu passagem, observando cada movimento meu. – A Sra. Masen não disse que vinha. Aquela mulher. Aposto que queria me pregar uma peça.
Eu não pude deixar de ficar surpreso com a intimidade da frase. Esme nunca tinha dado tamanha confiança para os empregados antes.

- Deixe-me olhar para você. – ela fechou a porta e me segurou pelos ombros. Eu reprimi a vontade de dizer ‘Mais?’. – Você está tão bonito. Mais bonito do que nas revistas.

Eu pigarreei, sentindo-me ridiculamente embaraçado. – Eu não apareço em revistas.

- Sim, aparece. – ela disse com confiança e então estreitou os olhos. – Quando você sai com aquelas modelos famosas e magérrimas. Oh, sim. Você já apareceu um bocado.

Dei um sorriso amarelo, desejando desaparecer de seu olhar reprovador. – Onde está Esme?

- Saindo pela tangente, não é. – como se eu nunca tivesse ido embora, ela me cutucou nas costelas sem cerimônia. – Tudo bem, eu deixo essa passar. Só por que você acabou de chegar. A Sra. Masen está no quarto, mas o seu pai está na sala de estar tomando um chá. Vamos, eu levo você.

Eu queria dizer que não precisava, que ficaria esperando por Esme ali mesmo, mas ela já estava andando na frente. Não que eu precisasse de guia, lembrava-me perfeitamente de todos os caminhos.

Carlisle estava sentado na mesma poltrona que costumava gostar de sentar a oito anos. Ele estava assistindo ao jornal da noite e sua xícara de chá repousava na mesinha ao lado da poltrona. Ele levantou os olhos quando entramos.

Depois que tinha saído de casa, eu havia encontrado Carlisle apenas três vezes. Duas em eventos sociais, e uma depois que voltei a falar com Esme. E ela nos arrastara para um jantar. Mas parecia que era apenas ali que eu estava o enxergando de verdade.

O cabelo dele, antes grisalho, estava branco e havia linhas em seu rosto. Linhas demais. Ele estava com uma aparência cansada, visível na forma como seus ombros pareciam pender para baixo junto a sua coluna.

Naquele momento eu cheguei a uma conclusão óbvia. Carlisle estava velho. Talvez eu não tivesse notado até então por que Esme parecia como sempre fora. Eu havia me esquecido que ele era quase dez anos mais velho do que ela e devia estar com pouco mais de sessenta anos.

Eu percebi naquele momento que talvez o tempo dele já estivesse acabando. Talvez o fato dele ter passado mal fosse devido a um problema de saúde sério. Até onde eu sabia, meu pai poderia estar morrendo e eu havia passado toda a minha vida esforçando-me para detestá-lo. A sensação de pânico que me invadiu era diferente e esmagadora.

- Edward.

- Boa noite, Carlisle.

Justine sorriu abertamente. – O que você quer, Edward? Um café, um chá, um vinho?

- Nada, obrigado.

Ela torceu o nariz. – Demora oito anos para voltar e ainda não quer nada. Ora. Trarei um café. Sr. Masen, outra xícara de chá?

Ele torceu o nariz igualmente. – Ainda tem o bastante aqui para três.

- E trate de tomar tudo. – ela estreitou os olhos assim como havia feito mais cedo e então apontou um dedo em minha direção. – Sente-se, rapaz. Já trago seu café. E também um bolo de cenoura que eu fiz ainda agorinha.

Ela saiu e embora tenha deixado a porta aberta, eu me senti estranhamente enclausurado. Eu me sentei por que permanecer de pé seria estranho e pigarreei quando Carlisle continuou a me encarar.

Diga alguma coisa, Edward. – Pelo que eu me lembre, você sempre detestou chá.

- Ainda detesto. Justine agora está com essa ideia na cabeça de que chá cura tudo. Como se fosse curar minha velhice. – ele grunhiu e balançou a mão. – Estou deixando esfriar para ver se ela tem pena de minha pobre alma e leva esse veneno daqui.

- Ela vai levar e vai trazer outro quente.

Ele curvou os lábios em humor. – É bem provável, mas eu ainda tenho esperança.

Silêncio.

Diga outra coisa, Edward. – Ah... Esme disse que você não estava se sentindo bem hoje de manhã.

- Dor nas costas, dor nos joelhos. Coisas da idade. Ela não entende que chegamos a um ponto da vida que temos de aprender a conviver com a dor. E nem poderia por que ainda não está nessa fase. A sortuda. – ele resmungou. – Aí fica inventando de me levar a médico. Rapazes ainda cheirando a leite que pensam entenderem bastante das minhas dores. Receitam um monte de remédio que tem efeito de duas horas e logo estou sofrendo de novo. De muito adianta.

Eu estava um pouco surpreso. Carlisle nunca fora de reclamar tanto ou se lamentar. Ele nunca fora de falar tanto, ponto. Assim que terminou o seu discurso, manteve os olhos em mim como se esperando pelo que eu diria a seguir. Pergunte qualquer coisa, ele parecia dizer silenciosamente. Eu tive uma súbita vontade de dizer que ele estava atrasado para as conversas, mas me contive. Afinal, a vontade não era tão grande como já fora.

Felizmente, Esme entrou na sala com um sorriso de uma orelha a outra. – Meu filho! Justine disse que você tinha chegado. Não marcamos as sete?

- Hum, sim. Não peguei trânsito. – menti.

Ela se sentou ao meu lado no sofá e me deu um beijo na bochecha. – Que bom. Podemos comer alguma coisa antes. Justine falou do bolo que ela fez? Está maravilhoso!

- Bolo o qual eu não pude comer. – Carlisle reclamou.

Esme estendeu uma mão em direção a ele. – Sua glicose está alta, querido. Você sabe. Mas você pode comer um pedaço pequeno com a gente.

- Como você é bondosa.

Ignorando o sarcasmo, ela sorriu de novo. – Sim, eu sou.

***

Saímos de lá vinte minutos depois e Esme estava quase querendo ir a pé de tanta agitação por eu ter me despedido de Carlisle com um abraço. Não que eu tivesse tido a iniciativa, mas ele havia levantado – com maior dificuldade do que deveria – quando íamos sair e de novo ele estava me encarando daquele jeito que eu simplesmente não tinha como ignorar.

- Carlisle parece... Cansado. – eu comentei com Esme quando estacionava em frente ao prédio do concurso.

Ela hesitou por um momento e então disse. – Ele teve um infarto há um ano. Depois disso, ele... Ficou menos ativo do que era.

- Ele vai morrer?

Ela deve ter visto alguma coisa no meu rosto por que balançou a cabeça firmemente. – Não. Por Deus, não, Edward. Ele só está envelhecendo.

- Mas ele ainda é novo para isso. Ele não devia estar assim.

- Talvez, mas os organismos são diferentes. – Esme segurou meu braço assim que eu tirei a chave da ignição. – Seu pai não vai morrer, Edward. Não agora. Ele disse que se recusa a me deixar sozinha para torrar o dinheiro dele com um garoto com metade da minha idade. – ela deu um sorriso triste. - Eu acredito nele.

- Mas ele disse que sente muita dor. Não há nada que possamos fazer?

Ela me encarou nos olhos. – Talvez tenha, Edward. Mas só você pode fazer isso. Ele precisa de você. Carlisle pensa que... Ele está sendo punido por ter... Sido um pai ruim.

- Isso é ridículo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Sim. Mas ele precisa de você do mesmo jeito.

***

As apresentações aconteceriam na mesma pista do dia da abertura do concurso e havia muitas mesas dispostas para que o público pudesse acompanhar e na primeira fileira tinha belas cadeiras com uma mesa angular onde os jurados estariam sentados julgando. O lugar todo estava todo muito bem ornamentado, ostentando muita riqueza e brilho, sem pesar em nenhum dos dois. As pessoas ali estavam vestidas da melhor maneira possível, a imprensa tinha seu lugar de honra – já que as notícias estariam espalhadas nos principais jornais no dia seguinte, disso eu tinha certeza – e fiquei pensando como mi estrella lidaria vendo sua própria imagem rodando Nova York. Eu sabia que ela arrasaria. E de repente franzi o cenho enciumado, só de imaginar que todos os cidadãos da cidade teriam uma foto de Bella com eles em casa pelo dia seguinte.

Estávamos um pouco em cima da hora, mas Emmet esticou e balançou o braço para cima freneticamente ao nos ver chegar. Eu tinha comentado mais cedo quando ele tinha me ligado que iria com Esme, mas ele sorriu em satisfação ainda assim quando a viu ao meu lado.

Eu gesticulei para a mesa na frente de Esme e nós fomos até lá. Ela sorriu muito contente e insistiu em conhecer as meninas.

- Elas são amigas da Bella. – eu expliquei. – Rose e Alice. Esta é minha... Hum...

- Sou mãe dele. – Esme esclareceu e beijou as duas. – Estou doida para conhecer a Bella!

Alice sorriu, claramente achando graça da situação. – Você vai, provavelmente. Mas depois da apresentação. Acho que já vai começar.

- Quero saber se ela é realmente tudo o que ele descreve nas cartas na casa...

Eu pigarreei alto. – Esme. Chega de falar. Vamos nos sentar.

- Não podemos nos sentar aqui?

- Não. A mesa está cheia, não vê?

- Ah, mas podíamos arranjar um espaço. – Jasper sugeriu muito sorridente. – E assim ela podia falar mais sobre estas cartas.

- Não queremos incomodar. – eu insisti, puxando Esme pelo braço. – Nos vemos depois.

Ela reclamou. – Nossa mesa é longe da deles. Não podíamos...

- Não, Esme. E eu não aprecio que você fique falando da minha vida daquela forma.

- Mas o que eu fiz?

Vendo que ela estava honestamente confusa, rolei meus olhos. – Abriu a boca. Ali, uma mesa vazia. Vamos.

Assim que nos acomodamos, a mesma mulher de expressão dura que anunciou a abertura do Concurso entrou na pista para dar início às apresentações. Estávamos a umas cinco mesas de distância da de Emmet e eu estava satisfeito. Não queria dar mais oportunidades para Esme dizer outras besteiras.

- Estou tão ansiosa. – ela depositou a bolsa sobre a mesa e esfregou as mãos. – Você vai me apresentar a Bella?

- Eu não tenho mais nada com ela, Esme. Lembre-se disso.

- Mas a história de vocês ainda não acabou.

Eu grunhi. – Não faça nada para me envergonhar.

Ela deu um sorriso inocente. – Quando eu fiz?

Brutamente, eu declarei. – Ela tem namorado. – o sorriso dela lentamente se desfez. – É o parceiro de dança dela.

Esme arqueou a sobrancelha. – Você nunca me disse isso. Você não está inventando isso para evitar que eu...

- Não estou inventando nada, acha que eu gosto da notícia? – eu interrompi. Quando ela tentou segurar minha mão, desviei o olhar. – Você verá quando os vir juntos.

Eu mal terminava de falar, a mulher anunciava que o primeiro ritmo seria a salsa e começava a chamar os participantes. Estava por ordem alfabética de país e logo Cuba foi chamada.

Eu me esqueci de Esme, esqueci estar irritado ao me lembrar de Jacob, esqueci tudo quando Bella apareceu. Esme segurou minha mão ainda assim e não soltou.

Ela estava usando um vestido dourado frente-única, reluzente, que vinha até os joelhos e rodopiavam ao seu redor e combinavam com seus sapatos com saltos. Seus cabelos estavam elaboradamente bem cuidados em um penteado que deixava algumas mechas soltas.  Ela estava maravilhosa. Como sempre. Apenas seu sorriso um pouco hesitante no começo me fez perceber que ela estava nervosa, mas isso aos meus olhos e por que eu já a conhecia.

Eles se posicionaram bem no meio da pista enquanto os outros participantes eram convocados. Bella olhou diretamente para a mesa onde o pessoal estava e recebeu sorrisos confiantes de Rose e Alice. E a partir dali o seu sorriso era o maior de todos, demonstrando confiança e a sua beleza natural. Em nome dos céus, salsa era o ritmo da minha estrela! Ninguém ali tinha habilidade suficiente para competir com ela nesse ritmo, quando a mesma já nasceu rebolando aqueles quadris maravilhosos. 

Eu desejei que ela olhasse para mim também, mas eram muitas mesas e minha ainda era na segunda fileira, mais longe da pista. Ela não me veria ali. Comecei a me arrepender de não ter me sentado junto a Emmet.

Aquela mulher enorme passou a palavra para uma mulher elegante, que educadamente explicou para o público e para os participantes como aconteceria aquela primeira rodada. Eles seriam divididos em dois grupos e todos se apresentariam ainda no mesmo dia. Dos catorze de cada grupo, restariam apenas sete em cada um, respectivamente, que passariam para a próxima fase, restando assim catorze para a próxima apresentação. Minha Bella foi escolhida como terceira a se apresentar do primeiro grupo.

A primeira dupla era de canadenses, que até dançavam razoavelmente bem, mas não tinham o gingado nem a malícia das pessoas que já nasceram dançando aquele ritmo, como a minha estrela. Quando a segunda dupla surgiu, eu senti pena deles. Não, definitivamente salsa não era um ritmo para que todos. Eu me vi querendo que os três minutos da música deles acabassem logo para que aquela apresentação tosca chegasse ao fim e eu pudesse finalmente ver quem eu desejava.

Quando anunciaram o nome da minha estrela, ela entrou demonstrando confiança e parou ao centro do palco glamoroso. Mas quando apagaram a luz e depois ressurgiu com a primeira nota forte da música e ela na sua posição inicial – com as pernas ao redor da cintura daquele babaca, segurando-o pelos ombros e mostrando seu sorriso mais lindo - já sabia que aquela mulher tinha me destruído. E que todas as pessoas ao meu redor sentiam o mesmo.

*Link para acessar a música*
http://www.radio.uol.com.br/musica/varios-artistas/conga/31898


A música começou. Isabella virou de costas para Jacob nos primeiros acordes e seus olhos se encontraram, como se programado, com os meus. Houve apenas cinco segundos de contato visual, mas foi o bastante. Ela sorriu. Eu sorri de volta. E então ela começou a dançar.
 
Os meus olhos se mantinham atentos, tentando absorver seus passos seguros e confiantes. Deus, como ela fazia aquilo? Era impossível não ver o sorriso que brotava nos olhos de quem estava assistindo de acordo a música avançava e a minha estrela mostrava como seus quadris poderiam remexer. Quando ela se afastava e dançava sozinha era quando eu mais gostava. E depois ela retornava novamente aos braços do seu... Parceiro.

Ela agarrou o pescoço dele de uma forma sensual demais e seus olhos brilharam junto a seu sorriso quando a mão dele subiu pela sua coxa até a lateral do seio. Meu coração quase parou. Quando percebi, Esme estava segurando minha mão e me puxando novamente para o seu lado; em um surto de fúria, já havia ficado de pé pronto para ir até lá e fazer alguma besteira.

Com uma sequência de floreios e muitos rebolados, com corpo grudado demais junto ao daquele idiota, eles terminaram a apresentação gloriosamente. Mas quando o último acorde foi anunciado, eu já estava aplaudindo.

Ela tinha sido maravilhosa, espetacular. E aquela cor no rosto dela com o sorriso só demonstrava o quão longe ela poderia chegar quando a determinação a assolava. E eu sabia que nenhum outro casal faria jus à apresentação de minha estrela.

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